Aquecimento global: é preciso mais do que biocombustíveis para enfrentá-lo

quarta-feira 17 de outubro de 2007 por Comunicação Terrazul

Por Marcel Gomes - Carta Maior

Debate reuniu especialistas e representantes do governo e de setores envolvidos com a luta ambiental para uma discussão sobre o aquecimento global. Ficou claro que a solução não passa apenas por alternativas energéticas, mas sim por uma definitiva mudança nos padrões de consumo e produção.

SÃO PAULO – Num dos mais quentes Debates Carta Maior até aqui, especialistas e representantes de setores envolvidos com a luta ambiental cobraram do governo brasileiro uma posição mais consistente no combate ao aquecimento global. Coube à secretária nacional de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Telma Krug, fazer a defesa das políticas oficiais. O evento aconteceu na noite de quarta-feira (10), no auditório de um hotel em São Paulo. Cerca de 50 pessoas assistiram ao debate no local e outras 9 mil o acompanharam pela internet, com transmissão ao vivo pela TV Carta Maior.

O tema do aquecimento global deixou de ser apenas questão acadêmica ou bandeira de grupos ambientalistas. A preocupação com o aumento da temperatura no planeta ganhou as ruas, estimulada por intensa cobertura da imprensa e pela sensação de que os efeitos das mudanças climáticas já são coisa do presente. Elevação do nível dos oceanos, verões mais quentes do que o normal e alterações nos períodos de chuva são alguns dos problemas que já podem ser sentidos por cidadãos de vários países.

O governo brasileiro tem participado ativamente dos fóruns internacionais de discussão sobre o aquecimento global e seu plano de incentivo aos biocombustíveis é posto como estratégico para minimizar os efeitos da queima de carvão, petróleo e gás – os principais causadores de emissões. “O etanol brasileiro é o único que não tem contribuição marginal para mudança do clima, segundo o próprio IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima]”, disse Telma Krug. Segundo ela, o etanol é um combustível renovável, em que o crescimento da cana no campo consome o CO2 produzido posteriormente pela queima do combustível.

Em tese, o esforço brasileiro para disseminar os biocombustíveis – além do etanol, há o biodiesel – parece fazer sentido. Conforme dados apresentados por outro dos debatedores da noite, o professor Célio Bermann, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), de um ponto de vista energético, o mundo depende em 81% daqueles três produtos fósseis. O que chama atenção, ainda, é que a maior parte das emissões de gases causadores do aquecimento global – 60,3% – tem origem na queima de combustível no setor de transportes, como o uso de automóveis. Nesse caso, o uso de etanol e biodiesel poderia colaborar – mas o próprio Bermann faz uma série de ponderações.

Para o professor da USP, não é a disseminação de biocombustíveis que irá resolver o problema do aquecimento do planeta. “A questão energética passa não pela busca de alternativas energéticas, mas pelo modelo de desenvolvimento, de consumo. Não há recursos naturais capazes de manter o mesmo padrão de consumo europeu e norte-americano estendido para todos os habitantes do planeta. Há finitude física”, apontou.

Com esse raciocínio, Bermann critica decisões do governo brasileiro de construir hidrelétricas na Amazônia em benefício de indústrias de alumínio – “um produto de baixo valor agregado” –, de retomar a usina nuclear de Angra 3 – “não há solução para os resíduos” – e de expor para o mundo a produção brasileira de etanol como um modelo a ser seguido – “quando há denúncias de violações dos direitos trabalhistas nos canaviais”. “Sempre se houve que países em desenvolvimento como o Brasil não podem ter as mesmas metas de redução de emissões que os países ricos, mas a idéia que se vende é que vamos chegar lá. É insensato”, completou Bermann.

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