Consumo de água pela carcinicultura é inviável

segunda-feira 28 de agosto de 2006 por Rogéria Araujo*

entrevista com Roberto Malvezzi

Adital - Para se criar um quilo de camarão são necessários 50 mil litros de água. A informação foi repassada por Roberto Malvezzi, o Gogó, da Comissão da Pastoral da Terra (CPT), durante o painel Panorama da Carcinicultura e da Água no Brasil, realizado nesta quarta-feira, 23 de agosto, durante o seminário Manguezais e Vida Comunitária - Os impactos sócio-ambientais da carcinicultura, que será encerrado hoje, 25, em Fortaleza, Estado do Ceará.

Os dados, um absurdo quantitativo, demonstram a inviabilidade econômica e ambiental no que diz respeito ao uso coerente da água. O volume de água citado acima, ressalta Malvezzi, é suficiente para abastecer três pessoas durante um ano. "Absolutamente contraditório, anti-ambiental, anti-econômico e anti-ético", disse, em entrevista a Adital.

Adital - Como a carcinicultura se relaciona com a questão do uso da água?

Roberto Gogó Malvezzi - Nós temos hoje uma questão muito urgente que é o uso múltiplo da água. Cada vez mais a água está sendo vista como um bem econômico e no seu uso econômico. E um dos usos econômicos do Brasil, sobretudo no Nordeste, está relacionado à criação de camarão em cativeiro. E o que tem chamado a atenção da gente é que, até agora, é a atividade que mais demanda água para poder ter sua funcionalidade. O cálculo que nós recebemos, que é confirmado pelos dados da FAO, é de que para você cultivar um quilo de camarão em cativeiro você precisa de, pelo menos, 50 mil litros de água.

Adital - Se poderia fazer uma avaliação do impacto desse consumo?

Malvezzi - Essa quantidade é absurda. Mostra que é uma atividade insustentável porque ninguém vai pagar o custo de 50 mil litros de água para criar um quilo de camarão. Se essa atividade é paga, ela é insustentável do ponto de vista econômico. E é também do ponto de vista ambiental porque, de qualquer forma, para criar camarão nos manguezais do Ceará, por exemplo, você está puxando água de dentro do semi-árido brasileiro. É a água do Castanhão, do Orós, que vem do rio Jaguaribe, para sustentar uma atividade dessa na foz, quando a própria população do coração do semi-árido, às vezes, não tem sequer a água de sobrevivência de cada dia. É absolutamente contraditório, anti-ambiental, anti-econômico e anti-ético.

Uma pessoa precisa, segundo os dados da Agenda 21 da Água, de 40 litros de água por dia para sobreviver. Durante um ano ela deve consumir uns 15 metros cúbicos de água. Se um quilo de camarão precisa de 50 mil litros de água para ser produzido, então o que se gasta com um quilo de camarão é água suficiente para abastecer três pessoas durante o ano inteiro.

Adital - Por que você acha que isso acontece?

Malvezzi - O uso da água em atividades econômicas não está sendo considerado do ponto de vista do que significa o consumo de água. Hoje em dia, nós somos obrigados a repensar a destinação da nossa água. Porque não tem água para toda essa demanda. Você coloca para irrigação, para criação de camarão em cativeiro. Tem que ter prioridades. E a prioridade, dentro da lei de recursos hídricos, é o abastecimento humano. E no uso econômico, nós precisamos pensar quais são as atividades viáveis e uma atividade dessa, com esse nível de consumo, com certeza, não é prioritária.

Adital - Se os impactos da carcinicultura já estão tão comprovados, por que ainda se autorizam a instalação de fazendas?

Malvezzi - É todo esse debate que está acontecendo neste seminário. Quem é que autoriza a instalação de carcinicultura nos mangues? Quem é que dá a licença da água? Tudo isso depende, pois se a água é estadual quem dá é a Secretaria de Recursos Hídricos do Estado, como no caso do rio Jaguaribe, no Ceará. Na verdade, quando a gente vai apurar quem é que está facilitando tantas ilegalidades, tanta destruição ambiental, fica difícil levantar porque são muitas entidades, cada uma na sua especificidade, que acabam contribuindo ou se omitindo, e até cooperando, para que isso aconteça. O fato é que acaba acontecendo.

* Jornalista da Adital

Fonte: Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

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