PT busca um projeto político para o Ceará

domingo 9 de abril de 2006 por Zacharias Bezerra de Oliveira

Seminário Integrador do Partido dos Trabalhadores do Ceará lota o Plenário da Assembléia Legislativa do Estado durante todo o dia deste sábado, dia 8, com militantes, dirigentes, prefeitos do PT e representantes de outros partidos que desejam formar coligação com o partido de Lula para derrotar o Cambeba no Estado e apresentar um novo projeto político para o Ceará.

Fortaleza, Ceará – Lideranças partidárias, militantes do Partido dos Trabalhadores no Ceará e convidados reuniram-se durante todo o dia de ontem, 8 de abril, em uma prévia do encontro estadual do PT, que acontecerá dias 21 e 22 próximos, para tentar construir um conjunto de diretrizes e discutir um projeto político para as próximas eleições no Estado e no Brasil. Em meio a sentimentos de revolta por parte de uns pela possibilidade de coligação em que o PSB (leia-se Cid Gomes) encabeçaria a chapa, e de conciliação por parte de outros, o projeto maior do partido e também dos aliados é promover a reeleição de Lula em outubro próximo e construir um programa de governo que apresente um novo projeto político para o Ceará, independente de quem seja o candidato.

O professor e jornalista Auto Filho esclareceu logo de início que sua intervenção tinha como elementos uma visão de totalidade e de espírito crítico. “O Ceará não se explica por si mesmo, como realidade isolada do resto do país. O Brasil não se explica por si mesmo, fora do contexto latino-americano. Nem muito menos a América Latina torna-se compreensível fora do contexto da crise mundial do capitalismo”, explica. Para ele, um “Diagnóstico sobre a situação do Estado, englobando o período do projeto das mudanças e o quadro das desigualdades regionais, com forte concentração de riqueza na Região Metropolitana pelos setores dominantes”, nome proposto para o Seminário, deve, não só criticar os “inimigos de classe”, mas por em discussão também o discurso e a prática do próprio PT ao longo dos últimos 20 anos.

Auto Filho disse que, “enquanto os povos da América Latina de língua espanhola ocupam ruas e praças, depõem presidentes submissos à agenda neoliberal do imperialismo americano, derrotam golpes de Estado e experimentam o que os venezuelanos chamam de revolução bolivariana, o governo Lula sangra solitariamente vítima do pacto criminoso da grande mídia burguesa e de um punhado de congressistas que sonham em revogar a Lei Áurea para avassalar na senzala do capital um povo atônito e bestificado pelos escândalos fabricados a cada semana que passa”. Segundo ele, o povo espera um sinal claro para aliar-se à luta contra a fome, a miséria e a desigualdade social que está aí. “Os partidos de esquerda e seus aliados, a militância petista de base, a CUT, o MST, as comunidades de base, os movimentos populares, o sindicalismo rural, a juventude, as mulheres e tantos outros movimentos sociais têm energia suficiente para tocar esta nova empreitada”, conclui, dizendo que esta é uma tarefa do Partido dos Trabalhadores e de seus aliados de esquerda.

ÉTICA

O psicanalista Valton de Miranda Leitão considera que há um avanço da direita na Europa devido a uma descrença generalizada no socialismo. “Há um avanço da direita no mundo, oprimindo a pobreza, degradando a natureza e liquidando a cidadania; nosso sujeito histórico foi desmembrado e perdeu forças, na medida em que sua estrutura de poder foi dilacerada”, explica. Citando Marx, Valton reclama do “aburguesamento” do poder que passou a existir dentro dos partidos de esquerda. “Boa parte do que ocorreu no Governo Lula se deu em decorrência de uma visão aristocrática da política”, justifica. Segundo ele, o estado democrático de direito tem regras, tem leis que precisam ser observadas. “A quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo é um exemplo de deslize do Governo Lula. Outro erro grave foi não ter feito uma reforma agrária ampla, não ter feito a reforma tributária e não ter enfrentado com a devida altivez o sistema econômico que nos coloniza”.

Apesar dessas considerações, em tom declaradamente pessimista, Valton reconheceu que o Governo Lula tem méritos muito maiores que os governos anteriores e que esta crise serviu para acordar as esquerdas e o PT do sono dogmático Kantiano. “Nós pensávamos que tínhamos a ética em nossas mãos. A ética é uma possibilidade construída diariamente, ela não pertence a ninguém, é apenas uma possibilidade do bem comum”, constata. Ao criticar a lógica de “um partido que quer ser o sol”, em uma clara alusão a uma recente divisão das esquerdas no país, Valton disse que todos precisam ter uma dimensão política centrada em um projeto comum. “Temos que ter uma compreensão histórica e avaliar politicamente as condições que o PT tem para uma candidatura própria pé no chão, vendo a relação custo-benefício, sem cometer harakiri político e pensando no conjunto do processo político”, concluiu.

AGENDA 21

As cerca de 32 intervenções de prefeitos, militantes e lideranças locais, ocorridas ao longo do dia em um debate conduzido na parte da manhã pela deputada estadual Rachel Marques e, à tarde, pelo deputado estadual Nelson Martins, falaram sobre a necessidade de se ter um programa de governo que venha acabar com as desigualdades no Estado e que a questão central é, independentemente de quem seja o candidato, que todos trabalhem para a reeleição do presidente Lula. Muitos concordaram com a colocação do deputado federal José Pimentel (PT/CE) de que esta questão é vital, inclusive, para o futuro da América Latina. Alguns lembraram o poder da força dos trabalhadores que, na Argentina, em passado recente, reergueram fábricas que estavam falidas quando uma profunda crise atingiu aquele país, e os que, na Bolívia, reverteram a privatização de serviços essenciais no país.

Falou-se muito de programa de governo que promova o “desenvolvimento econômico e sustentável”, que diminua as desigualdades no Estado, que “derrote” as forças políticas que dominam o Ceará, mas, somente uma liderança política, ao final do dia, lembrou de citar a necessidade de se trabalhar a Agenda 21 como um programa de governo que deve promover a sustentabilidade. Para Maria do Socorro Gonçalves, secretária executiva da Associação Alternativa Terrazul, associada ao Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS), a Agenda 21 é um importante instrumento no planejamento de um programa de governo. É impossível, hoje, pensar em desenvolvimento sustentável sem a aplicação da Agenda 21 em programas de governo, nas administrações locais. Mas isto, enfatiza Socorro, depende muito de vontade política e da participação de cada um. A Agenda 21 pode ser considerada vital para garantir uma vida sustentável para esta geração e para as gerações futuras.

Assinaturas: 0

Fórum

Associação Civil Alternativa Terrazul,

Rua Goiás No 621. Bairro: Pan-Americano. Cep: 60441000 Fortaleza - Ceará - Brasil

E-mail: alternativa.terrazul@terra.com.br tel: + 55 85 32810246

Alternatives International

Data Nome Mensagem