Fórum Global da Sociedade Civil discute os impactos do milho transgênico

quinta-feira 16 de março de 2006 por Zacharias Bezerra de Oliveira

Palestras sobre os impactos do milho transgênico, seguidas de debate, deram continuidade hoje, 15, ao Fórum Global da Sociedade Civil, promovido pelo Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS), evento paralelo que está sendo realizado durante o encontro da MOP3 sobre o Protocolo de Cartagena e sobre a Biossegurança e que se estenderá durante a COP8 - Convenção sobre Diversidade Bioloógica (CDB) – até o próximo dia 31 de março.

A representante da organização African Center for Biosafety, Mariam Mayet, explicou que, de um total de mais de 50 países existentes no continente africano, somente um permite a cultura e o comércio de sementes com organismos geneticamente modificados (OGMs). E este país é a África do Sul. Todos os outros países não aceitam estes produtos nem plantados, nem importados de outros países. Mariam considera que a África é um continente desafortunado, porque tem muitos problemas de instabilidade política, de secas, de destruição do meio ambiente, de insegurança alimentar, especialmente em países que produzem petróleo ou possuem minas de diamantes. “Estes países importam uma grande quantidade de grãos, recebem muita ajuda alimentar, mas nenhum deles, por mais pobre ou por mais instável que seja seu sistema político aceita qualquer alimento que contenha OGMs”, afirmou, esclarecendo que aí não existe um mercado grande para produtos transgênicos, como na América Latina, particularmente Brasil, Paraguai e Argentina.

Segundo Mariam, na África, o milho é, para alguns, a única forma de alimento para todo o dia. O milho aí sempre foi cultivado sob o controle de pequenos produtores. Na África do Sul, porém, a introdução do cultivo e do comércio do milho transgênico foi resultado de uma mudança da política agrícola, da indústria e do comércio agrícola do país. “Uma política que provocou um grande desmatamento e devastação ambiental de muitas áreas, sendo que a única fronteira que nos resta agora é o povo, é a agricultura familiar e a conservação da biodiversidade”. Mariam esclareceu também que o milho produzido na África do Sul não pode ser vendido no mercado doméstico e está totalmente estocado para as exportações. “O país importa enorme quantidade de milho da Argentina para suprir suas necessidades internas, que é consumido pelo nosso povo como alimento de base”.

Mariam acrescentou que na África do Sul, são cultivados três tipos de milho, cujas sementes são distribuídas aos agricultores, como produto de uma reforma agrária acontecida no país e que faz parte de um pacote econômico do governo para agricultores previamente selecionados. “Estas sementes são levadas diretamente para a terra onde será plantada e vêm acompanhadas de subsidios do governo e outras facilidades, como acesso à terra e aos recursos naturais de água”. Mariam enfatizou que isto está trazendo uma popularização dos produtos com OMGs na África do Sul. “Eu acho que é só uma questão de tempo para outros países aderirem a este comércio dos transgênicos”, concluiu.

O representante da Ecootopia, uma associação de cooperativas de idéias e soluções para o econdesenvolvimento, Luiz Gonçalves, explicou que nenhum cereal é tão generoso como o milho. “Se nós tivermos uma catástrofe, nenhum outro cereal poderá ser plantado e colhido entre três e quatro meses de tempo para alimentar uma população. Somente o milho é capaz de fornecer alimento em tão pouco tempo”. Segundo Luiz, este cereal que foi tão bem cuidado e guardado pelos povos da América, estava sendo guardado para ser compartido por todos os povos sem o pagamento de nenhum custo, para todos os povos da América, para solucionar problema de fome. O milho, continuou, é o alimento humano por excelência, é uma fonte impressionante de nutrientes, que somados aos demais nutrientes proporciona a base do alimento para uma família.

“Junto com o milho, existe a abóbora e várias espécies de feijões que trazem proteína, além de uma série de pimentas antigas que também eram usadas como condimentos que enriqueciam em minerais, enriqueciam em vitaminas o alimento, que era retirado de dentro da roça de nossos ancestrais, e que só hoje os que fazem o comércio internacional começam a valorizar. Deveríamos estar comendo estes alimentos e não as verduras européias que nos foram impostas pela colonização, no lugar de alimentos que são da nossa cultura, da nossa bioregião, que nos alimentam muito melhor que os alimentos que nos trouxeram de fora. A nossa culinária é a mais rica que existe envolvendo o cereal. Precisamos resgatar nossa soberania alimentar, pois quem não tiver autonomia alimentar jamais vai ser livre”, finalizou.

A situação mexicana

Alberto Gomez, da União Nacional de Organismos Regionais Camponeses Autônomos (Unorca), explicou que o milho é o alimento básico da dieta no México. “É uma questão de sobrevivência para nós camponeses conservar o cultivo do milho”, enfatizou. Segundo ele, dos 4 milhões de camponeses mexicanos, pelo menos 2,5 milhões se dedicam a produzir o milho. Mas produzir alimentos para a população é muito difícil para um país sujeito a pressões externas e passa a ser um assunto de soberania e de identidade nacional.

Alberto acrescentou que a importação de milho no México saltou de 60 mil toneladas em 1993, para 14 milhões de toneladas no ano passado. “Nos convertemos com o Tratado de Livre Comércio em um dos maiores importadores de milho, principalmente para a alimentação de animais. O México transfromou-se em um importador de alimentos e um país dependente da importação de produtos estratégicos para a alimentação de seus cidadãos. “Está na hora de conscientizar os camponeses da importância estratégica que têm como pequenos produtores de alimentos, e o papel que isso tem sobre a conservação dos recursos naturais e que somos capazes de produzir alimentos sadios. A terra é patrimônio familiar, que não se pode embargar, que não se pode vender, porque dela depende a nossa soberania alimentar”, asseverou.

Álvaro Salgado, da Rede por uma América Latina Livre de Transgênicos (Relat), disse que tem conhecimento de que há contaminação de milho no México em nove estados, mas esta contaminação, continua, é muito mais grave do que o que se tem conhecimento. “Há estudos que indicam isso, mas o governo não divulga e, o que é mais grave, é que a ação do governo para conter a contaminação é nula”. Portanto, para ele, plantar o milho nativo no México é um ato de soberania, um ato político de rebeldia, além de ser um ato agroecológico importante. “É um absurdo o que vivemos em México, porque temos um governo que não escuta o povo, que vive afastado do povo e porque aí temos leis que não nos protegem como cidadãos”, concluiu.

Programação de hoje, 16

O Fórum Global da Sociedade Civil terá continuidade hoje, dia 16, seguindo o lema da Campanha por um Brasil Livre de Transgênicos, com os temas Áreas Livres de Transgênicos, na parte da manhã, com as palestras de Rui Valença (Fetraf), de representante do MST e de Benedikt Haerlin, do Greenpeace Internacional; e, no período da tarde, Biossegurança, contaminação genética e soberania alimentar, com as palestras de Jean-Pierre Leroy (FASE), Ana Flávia Rocha (Abrandh), e representante da Vía Campesina. Estão previstas também a Festa do Milho crioulo e Feira de Sementes, culminando com a Mística do Milho, às 18 horas.

Mais informações no site www.fboms.org.br/eventos/cop8.htm.

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