CONSUMO CONSCIENTE: Questão de escolha

domingo 22 de janeiro de 2006 por Rose Mary Bezerra

Ações cotidianas, concretas e voluntárias de consumo consciente permitem a qualquer pessoa contribuir para a preservação do meio ambiente e melhorar a qualidade de vida de todos. Um amplo despertar de consciências para esta nova realidade é um dos desafios lançados pelo Fórum Social Mundial, que começa esta semana, na Venezuela

Você é o tipo de pessoa que entra no supermercado e avalia cada produto que vai colocar dentro do carrinho ou não está nem aí para sua origem e se realmente precisa daquilo naquele momento - muitas vezes, pagando caro por sua escolha? Quem sabe, não chega a esse ponto, mas adora produtos bem baratos, de origem um tanto quanto suspeita e que podem ser consumidos de forma exagerada, sem passar por sua cabeça que está por trás desse baixo custo a exploração da mão-de-obra e geração de problemas sociais ou, até mesmo, o trabalho infantil?

A consciência tem um preço, o qual nem todo mundo concorda em pagar, já que aparenta ser mais elevado do que se gostaria. Hoje muitas questões, sobretudo as ecológicas e ambientais, perpassam pelo seu despertar, nem sempre aceito com tanta prontidão quanto necessário. Criar uma nova cultura que abra espaço para a qualidade e uma vida sustentável ainda parece utópico e distante.

No entanto, o aumento populacional e o consumo desenfreado há tempos vem gerando problemas de grande monta que se tornam cada vez mais críticos, ao ponto de ameaçar a viabilidade de toda espécie de vida sobre a Terra. Esse contexto iminente faz parte de todo um sistema, desencadeado por uma lógica de funcionamento que necessita ser repensada para uma mudança urgente e global.

Tudo o que cerca essa temática está na ordem do dia, pois numerosos grupos e movimentos se encontram reunidos para o Fórum Social Mundial. Esta é a sexta edição do evento, que traz a descentralização como novidade, ao eleger três cidades como sedes (capítulos) dos debates: Bamako (Mali - África, iniciado no último dia 19, se estendendo até amanhã), Caracas (Venezuela – América, de 24 a 29 deste mês) e Karachi (Paquistão – Ásia, com data ainda a ser definida).

Várias entidades mundiais e organizações não-governamentais participam do evento, dentre elas, a ONG sócio-ambientalista de Fortaleza, Associação Alternativa Terrazul, voltada para o desenvolvimento de estratégias, junto às comunidades da capital e do interior do Estado, visando o consumo sustentável.

De acordo com Maria do Socorro Gonçalves, secretária executiva do Terrazul e coordenadora da loja estadual e da Liga dos Consumidores Conscientes do Estado, a ONG foi criada há dez anos e conta com projetos nas áreas de gênero, produção e natureza. O pioneiro deles é desenvolvido no município de Marco (próximo a Jericoacoara), a 250 km de Fortaleza. Seu objetivo é inserir as mulheres na cadeia de produção e sua efetiva participação na vida política e social da comunidade.

A crise ambiental, no olhar de Socorro, passa sim pelas questões de gênero, pois ainda hoje se diminui e exclui o feminino na vida social como um todo. ‘‘Em Marco, o projeto visa a criação de um centro de formação, cultura e produção ecológica. Na comunidade, ainda não existe uma compreensão sobre o impacto imediato dessa iniciativa. As pessoas não sabem até que ponto suas ações diferenciadas ajudarão a mudar algo, sendo grande necessidade de informação’’.

O ponto chave da atuação da Terrazul, contudo, que também será levado para debate neste VI Fórum Social Mundial, é o programa de educação ambiental para a formação de consumidores conscientes, justamente pela importância que tem essa temática sobre o consumo e o meio ambiente.

Para a formação de consumidores conscientes, Socorro Gonçalves diz que, além de ter essa percepção mais clarificada, a estratégia de mudança passa pelo processo educativo, pois é uma ferramenta poderosa, capaz de gerar um senso crítico e ampliar a visão para que novas escolhas sejam estabelecidas.

Os integrantes da ONG formularam um programa de sensibilização da população com metodologia específica, fundamentado nos princípios de Paulo Freire. O processo de construção do conhecimento parte do princípio do que as pessoas sabem sobre o tema, possuindo liberdade para formular seus próprios conceitos.

Outra organização não-governamental focada neste conceito é o Instituto Akatu, criado há cinco anos no âmbito do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Seu objetivo, desde o princípio, foi educar e mobilizar a sociedade para o consumo consciente.

A palavra “Akatu” vem do tupi e significa, ao mesmo tempo, “semente boa” e “mundo melhor”, traduzindo a idéia de que o mundo melhor está contido nas ações de cada indivíduo.

De acordo com Aron Belinky, gerente de projetos da ONG, os pilares do Instituto são: educar, informar, sensibilizar, mobilizar e animar cidadãos para assimilarem, em seus comportamentos e atitudes, o conceito e a prática do consumo consciente. Para cumprir esta espécie de ‘‘missão’’ é necessário um trabalho com várias frentes de atuação, como o desenvolvimento de atividades em comunidades; divulgação de conceitos e de informações na Internet, em publicações, na mídia e em campanhas publicitárias; geração de pesquisas; e elaboração de instrumentos de avaliação e informação sobre o consumo consciente.

‘‘Nossa idéia central não é dizer para as pessoas o que elas devem ou não fazer, o que devem ou não consumir. Fornecemos elementos para que pensem e reflitam. O objetivo é aprender a escolher com consciência. Oferecer a informação para as próprias pessoas decidirem é mais desafiador’’, afirma Belinky.

O consumo consciente ou sustentável é um conceito bem mais aberto, que hoje está além da direção da economia, dos direitos do consumidor e da reciclagem de lixo. Não é uma postura reativa, avisa Belinky, mas leva o consumidor a se identificar como um protagonista dentro desse amplo contexto social, político e cultural. ‘‘O consumidor tem poder. Pode e deve usá-lo em benefício de uma sociedade mais sustentável. Ele parte da forma básica do cidadão consumidor para se tornar um consumidor cidadão”.

Fonte: Caderno Viva/Diário do Nordeste (22.01.2006)

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