A economia popular e o consumo consciente

sábado 14 de janeiro de 2006 por Zacharias Bezerra de Oliveira

O ministro da Economia Popular da Venezuela, Elias Jaua, em palestra proferida na noite de ontem, dia 13, no Sindicato dos Comerciários, defendeu que o nordeste do Brasil seja o epicentro de um novo tipo de integração em que todos sejam incluídos. O ministro encontra-se em Fortaleza com uma comitiva para contatos com os setores da economia solidária da cidade. "Não faz sentido uma integração apenas com o comércio e as grandes indústrias e que os outros sigam na pobreza, na miséria", declarou. O ministro enfatizou, ainda, que essa é uma tarefa vital para o governo da Venezuela: fortalecer a América Latina com políticas populares, revolucionárias e de participação popular. "Nossa tarefa é construir um caminho para isso", explicou.

Elias Jaua acrescentou que a economia popular está fazendo um resgate da economia em seu país, que durante 200 anos teria ficado subjugada ao poderio estadunidense. "Estamos trilhando o caminho para fortalecer a economia popular e para traçar uma política para que os pobres vivam com dignidade e com justiça, cujos valores são saber como se produz, para que e para quem se produz", sublinhou. O ministro advoga por um desenvolvimento endógeno, isto é, que surja de dentro, do âmago de cada sociedade, e que esta decida de maneira soberana quais são os seus valores e sua visão de futuro. Ele acredita que o desenvolvimento não é um valor universal e que o homem deve lutar por um modelo de desenvolvimento que possa dar respostas específicas para cada situação apresentada.

Ao responder perguntas da platéia, o ministro deixou claro que um modelo de desenvolvimento socialmente justo, economicamente viável e ecologicamente equilibrado deve satisfazer as necessidades humanas, materiais e não materiais, deve ser autosuficiente, onde cada sociedade tenha como princípio basilar suas potencialidades e recursos e, obviamente, deve utilizar os recursos naturais de maneira que eles atendam as necessidades do presente, sem comprometer as gerações futuras.

TERRAZUL

A secretária-executiva da Associação Alternativa Terrazul, Socorro Gonçalves, perguntou ao ministro Jaua o que está sendo feito em relação à organização de consumidores. "Existe um paradoxo: hoje, há pessoas que morrem porque consomem demais, outras morrem porque não têm nada para comer. Nós entendemos que a economia solidária é importante para fortalecer o movimento da liga de consumidores conscientes e que, por sua vez, a liga também fortalece a economia solidária. Como está a organização de consumidores conscientes na Venezuela?", indagou.

Jaua contextualizou o surgimento da economia popular na Venezuela, onde foram realizadas reformas institucionais desde 1999 e deixou claro que é dever do estado venezuelano apoiar política e economicamente a economia popular e facilitar o desenvolvimento de atores dessa economia. Para tanto, explicou o ministro, em um primeiro momento foram criados o Banco do Povo, para dar suporte aos pequenos empreendimentos e o Banco de Desenvolvimento das Mulheres, o qual permitiu a organização destas e, a partir do financiamento próprio, sua liberação, independência e conscientização. Além destes foi criado o Fundo de Desenvolvimento Microfinanceiro, responsável pelo financiamento de caixas rurais e microbancos que ajudam a financiar as prefeituras.

Quanto ao consumo consciente, Jaua deixou claro que não há organização de consumidores conscientes em seu país. "Nós importamos 80% de tudo o que consumimos e nosso primeiro esforço é criar produtores conscientes", aduziu. Jaua esclareceu que não podiam seguir com a tendência de um país centrado no comércio, onde os setores mais pobres foram os mais impactados com os movimentos da direita que tentaram depor Hugo Chávez em 2002, apoiados pela oligarquia e pelo governo de Bush. "Os setores pobres foram os mais afetados com esse movimento golpista da direita, mas as pessoas resistiram bravamente, um mês sem gás, sem combustível, sem alimentos básicos etc. porque sabiam que esta era uma tentativa de dobrá-los pela fome", disse.

O que se fez, então, foi organizar um processo de capacitação em nível técnico com a finalidade de facilitar o desenvolvimento da democracia participativa, de maior participação popular e desconcentração territorial e redistribuição da terra para que se priorize a produção nacional, a independência tecnológica, a soberania alimentícia, o cooperativismo e o trabalho independente, valorizando, assim, a cultura local, a igualdade de gênero e a comunicação livre e alternativa.

O ministro acrescentou que 285 mil pessoas foram capacitadas e que 200 mil já se organizaram em cooperativas e já estão obtendo financiamento. "Isto gera o desenvolvimento de políticas públicas voltadas diretamente para as comunidades, sem intermediários e faz com que os povos marginalizados recobrem suas atividades artísticas, culturais, de comércio, de produção ou seja lá o que for", completou. Novos cursos de capacitação estão abertos para 300 mil venezuaelanos e venezuelanas este ano.

O ministro defende que as compras feitas pelo Estado sejam cada vez mais dirigidas para as redes de produção de economia solidária. "Meu desejo é que os atores da economia solidária tenham um espaço cada vez maior na economia do país e da América Latina, pois a única economia que pode servir ao povo com justiça e dignidade é a economia solidária", finalizou.

ENTREVISTA

Ao final da palestra, antes de partir para o seu próximo compromisso, o ministro Elias Jaua, concedeu uma rápida entrevista à Associação Alternativa Terrazul. Leia abaixo:

TERRAZUL - Ministro, o senhor acha importante a formação de uma liga de consumidores conscientes como suporte à economia solidária e em oposição às grandes empresas:

ELIAS JAUA - É fundamental. Nós fomos obrigados, durante muitos anos na Venezuela, a consumir o que a elite nos havia imposto como estilo de vida e a venda do petróleo havia sido dirigida para montar um modelo de consumo que não correspondia às nossas necessidades, além de malbaratar o país e acabar com a sua capacidade de produção. O que necessitamos é que o nosso povo produza o que precisa para consumir. Produzir de acordo com suas necessidades de consumo e não este artifício imposto pela quantidade de produtos que a propaganda ideológica do capitalismo nos impôs durante tanto tempo.

TERRAZUL – Existe alguma experiência no sentido de formação de ligas ou de associações de consumidores conscientes na Venezuela?

ELIAS JAUA – Ainda não. Há experiências de algumas sociedades de economia solidária, mas para lograr a sua oganização e distribuição. Estamos sempre criando medidas que encaminhem para um processo de recuperação da economia, através da capacitação e esperamos que daí surja um movimento de organização de consumidores conscientes. O importante é saber como se produz, o que se produz e para quem se produz.

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