A dança da vida

sábado 7 de janeiro de 2006 por Zacharias Bezerra de Oliveira

A Marcha dos Pingüins, filme documentário, do cineasta francês Luc Jacquet, mostra aos humanos como nós somos dependentes do grupo para a nossa sobrevivência. Como diz Capra e reafirma Odum é uma cadeia sistêmica. O individualismo não tem vez na dança da vida, quem se isola porque foi fraco e não conseguiu acompanhar o grupo ou por qualquer outro motivo acaba sucumbindo. O filme nos mostra também que não somos superiores a ninguém e que nós, seres vivos, todos dependemos uns dos outros para poder viver.

Nesta obra dramática que mostra a luta pela preservação das espécies nas planícies desérticas do oceano antártico, é fácil perceber que não importa saber se os animais pensam, raciocinam ou não, a verdade pura e simples é que eles são capazes de sentir medo, sede, fome e dor como todos os seres vivos. Aliás, ao final do debate, que ocorreu após a exibição neste sábado, o crítico de cinema Pedro Martins Freire, responsável pelo Cinema de Arte, citou Aristóteles, dizendo: “Os animais também sentem dor e só são diferentes de nós por que não têm o hábito da reflexão”.

À Tarde, em casa, esperava-me um outro filme: Hotel Ruanda. O contraste é gritante. No continente antártico, os pingüins se ajudam, enfrentando intempéries, andando em círculos para se protegerem, os machos com os ovos sobre as patas e debaixo de seu corpo para não tocarem o gelo para chocar e dar a vida a seus filhotes, enquanto as fêmeas voltavam ao oceano em busca de alimento. No continente africano, tutsis e hutus se matam e se estupram em uma guerra genocida assistida, tolerada e negada pelo ocidente, que deixou o rastro de um milhão de mortos em 1994. Neste filme, um pingüim, gerente de um hotel, Paul Rasesegaba, conseguiu salvar 1268 hóspedes que abrigou no hotel em que trabalhava.

Debate

Após a sessão de pré-estréia de hoje no Cinema de Arte UCI-Severiano Ribeiro, seguiu-se um debate coordenado pela jornalista, editora do Caderno de Gestão Ambiental do Diário do Nordeste, Maristela Crispim. Segundo ela, em vez de humanizar os pingüins, como buscou fazer o cineasta em sua obra, narrada na versão em português por Patrícia Pilar e Antônio Fagundes, talvez nós precisemos mesmo é “pinguinizar” os humanos. “Os pingüins conseguem perpetuar a espécies sem desequilibrar o meio ambiente, como fazemos nós seres humanos”, pontuou.

Jeovah Meireles, professor doutor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e orientador do curso de Mestrado do Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema), lembra os estudos que mostram como o continente antártico tem diminuído com as mudanças climáticas ocorridas no planeta. “Há 10, 15 mil anos a Antártica beirava a América do Sul. A Antártica está diminuindo o seu volume e, em conseqüência, a quantidade de vida. A tendência é que o gelo se dissipe. A quantidade de CO2 nas camadas de gelo e as temperaturas estão aumentando”, alerta. Ele chama também a atenção para a quantidade de energia vinda da Antártica que transita pelo nosso planeta e que nós usamos sem refletir.

O filósofo Ralph Bezerra, professor da FIC, pergunta o que há em comum entre nós e os pingüins? E ele mesmo responde: é a vida! “Os pingüins vivem momentos de carinho. Um deles foi morto por uma lontra ou por uma moréia. O que se vê? Vida! Energia que se transforma em vida. Vida é esse pulsar de energia que se transfere de um ser para outro, de um animal para outro em busca da vida. Perder o filhote e tentar tomar um outro é apenas a tentativa que o pingüim faz de dar a sua parcela de contribuição para o baile da vida. O que nós humanos fazemos para isso?”

A advogada Geuza Leitão, presidente da União Internacional Protetora dos Animais (UIPA), diz que o filme traz uma mensagem de não superioridade da raça humana sobre as outras espécies e que o animal, diferentemente do homem, só mata para se alimentar ou para se defender. Para ela, o filme serve para despertar a consciência ecológica já que poucas pessoas hoje se preocupam com o equilíbrio ecológico. Ela lembra também o espírito de solidariedade visto no filme e explica que essa é uma característica comum aos animais que nós chamamos de irracionais. Cita o caso dos elefantes, que lutam para que membros da sua espécie não sejam capturados, os pombos e os gatos que avisam os outros quando tem comida e das formigas que se revezam para carregar os alimentos.

Passada a fala dos debatedores, Patrícia Nothingam, ambientalista e funcionária da Secretaria do Meio Ambiente de Fortaleza (Semam) cita o historiador José augusto Pádua para dizer que existe uma certa prepotência do homem imaginar que o ser humano é o responsável por todas as transformações da natureza e que tudo é fruto da nossa intervenção. “O filme mostra que a morte não acaba com a vida e fala também o que é a vida e quantas interpretações ela pode ter: o preto significando a ida, quando o filhote vê o pai, após passar a guarda do filhote para a mãe, indo em busca de alimento no oceano, e o branco, quando ele finalmente retorna. Isso é a dança da vida. Neve. Gelo. Vento. Sol. Gelo Oceano. Pingüim”, diz. A questão de gênero, onde o papel de cuidar da vida do filhote é dividida igualmente entre macho e fêmea foi o que mais chamou a atenção de Cleide, também funcionária da Semam.

A professora doutora Raquel Rigotto, da UFC, presidente da Associação Alternativa Terrazul, chama a atenção para a mensagem de vida que traz junto com ela a morte que existe no filme. “A gente exorciza a morte, traz sempre uma negação disso com a gente, mas a morte faz parte do ciclo da vida. A fobia da morte no mundo ocidental tem a ver com a ganância com a destruição. Nós lutamos cegamente contra a morte, resistimos, nós médicos somos treinados para usar todos os artifícios para manter a vida, sem saber acietar que ela faz parte da vida”, enfatiza.

O psicólogo Raul Monteiro menciona que o filme traz uma reflexão sobre os nossos arquétipos, que, segundo ele, são os instintos nos animais. “O filme nos traz uma grande lição de aceitação dos opostos: vida e morte; frio e calor, bem e mal”.

Para o ambientalista João Saraiva o que passa no filme é um exemplo de tudo o que acontece no planeta. “A gente se arvora como o responsável por tudo o que acontece no planeta e como o protetor, como se nada pudesse acontecer sem que nós participemos, mas somos nós que mexemos com as máquinas. Independente de nós, o planeta, nas suas mais diferentes formas vai sempre encontrar uma linha de equilíbrio, mesmo que o preço para isto seja a destruição de algumas espécies, inclusive a raça humana”, acentua.

Quanto a esse aspecto, o filósofo Ralph, diz que já passou da fase de querer mudar o mundo. “Hoje eu quero mudar é a mim”. Ele acredita que a moral é necessária, pois nenhum grupo consegue sobreviver sem regras. “É preciso dar vazão a nossa vontade e potência, saber também até onde nós queremos ir, juntos, no grupo, pois sozinho a gente sucumbe. A possibilidade maior é no grupo. Este arquétipo cultural que a economia globalizada acelerou não tem vez. No coletivo está a condição da minha existência. A gente tem que dar a mão para o outro e repensar o nosso papel na sociedade”, finalizou.

A Marcha dos Pingüins estréia nos cinemas na próxima sexta-feira, dia 13. Dia de sorte! Vale a pena conferir.

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