FBOMS debate mídia, política ambiental e opinião pública na II CNMA

segunda-feira 12 de dezembro de 2005 por Zacharias Bezerra de Oliveira

Encontro na noite de hoje, dia 12, durante a realização da II Conferência Nacional do Meio Ambiente de jornalistas, editores e diretores de agências ambientais, discutiu o papel da comunicação ambiental na construção das políticas públicas de meio ambiente e na formação da opinião pública. Esta temática do debate sobre Mídia, Política Ambiental e Opinião Pública, foi proposta pelo Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais (FBOMS). O debate foi mediado pelo jornalista Juarez Tosi, da Ecoagência Solidária de Comunicação Ambiental.

O editor do Jornal do Meio Ambiente, Vilmar Berna destacou que o jornalismo ambiental é muito importante para a cidadania ambiental global, mas está numa encruzilhada. “O ser humano sempre usou o planeta como um grande armazém que tudo provê e como um grande depósito sem fim de nossos restos; isso trouxe progresso , sem dúvida, mas precisamos ter em mente que um novo modelo de desenvolvimento é necessário... precisamos aprender a viver com o planeta Terra e não contra o planeta”, lembrou.

“O papel da mídia nesse momento é fundamental, pois ela vai possibilitar que através da informação de qualidade em quantidade suficiente vá permitir que a sociedade vá fazer escolhas corretas entre um modelo insustentável e sabidamente predatório e um modelo sustentável; sem informação a sociedade não tem como decidir, pois a informação vem sendo negada à sociedade através de diversas formas: ela não tem acesso a plano de mídia, a informação é sedimentada apenas no bicho e na planta excluindo o ser humano”, enfatizou Berna.

Berna entende que a mídia não tem conseguido passar isso para a sociedade, que, segundo ele, precisa receber informação com qualidade e quantidade para poder ter instrumentos para colocar em prática esse novo modelo de consumo, que vai “atender as nossas necessidades sem prejuízo para o atendimento das necessidades das gerações futuras”, como definiu muito bem a dinamarquesa Gro Brundtland o conceito de consumo sustentável. O papel do jornalista, segundo Berna, é muito importante. “Há inúmeras publicações sobre temas diversos, como jardinagem, Feng Shui etc., mas nenhuma não há uma que reflita a complexidade ambiental do Brasil”, explicou.

“O homem ainda hoje se exclui do meio ambiente. Ele acha que a questão ambiental é importante, mas como não é estratégico, para ele também não é relevante”, frisou.

O editor do JMA ressaltou, ainda, que foi entregue uma moção ao Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente, durante a II CNMA, solicitando a implementação do Grupo de Trabalho de Informação Ambiental, que já está criado desde 2004, mas nunca foi instalado. Para Berna, cada município deveria ter um órgão que atendesse o desafio que todos nós jornalistas ambientalistas temos que é o de falar para a sociedade e não apenas para nós mesmos.

Berna considera um “absurdo” que a mídia ambiental esteja competindo com a Veja, Rede Globo etc., pois, segundo ele, “não interessa a uma grande empresa poluidora anunciar em uma mídia que a critica”. Por fim, Berna defende que 5% das verbas com publicidade do Governo devem ir para mídias ambientais.

Francisco Costa, do Programa de Educação Ambiental do Ministério de Meio Ambiente, explicou que a Portaria ministerial 68, de 31 de julho de 2004, que trata da democratização da comunicação, instituiu o Grupo de Trabalho sobre Comunicação e Informação Ambiental, formado por representantes do MMA, do Ibama, de redes e núcleos de jornalismo ambiental e científico, de organizações não-governamentais e instituições de ensino. Este GT tem como objetivo elaborar uma proposta e diretrizes de política, instrumentos e ações para fomentar a produção, a difusão e a democratização da informação ambiental no país. Costa lembrou o Programa Nacional de Educomunicação Sócio-Ambiental e falou sobre a importância de aproximar o GT de Comunicação e Informação Ambiental do grupo de educação ambiental. O texto informativo também pode ser educativo e o texto educativo pode ser agradável. Ele reconheceu que é preciso um pouco de pressão para fazer este GT funcionar, mas lembrou temos interlocutores e apoiadores dentro do Ministério para isso.

A jornalista e doutora em Sociologia, Maristela Bernardo, disse que o tensionamento permanente na sociedade em tudo que diz respeito à comunicação e ao meio ambiente torna necessário que se discuta estrategicamente a comunicação, reconhecendo que “isso nunca foi colocado como prioridade”.

“A comunicação faz parte de um jogo de poder; é um instrumento de todos, daí a importância da grande mídia”, enfatizou Maristela explicou que o trabalho da informação ambiental, muitas vezes, é um trabalho que deve ser feito com uma determinada comunidade pelas organizações para tentar passar para o poder público, quais são as necessidades da comunidade.

“Muitas pessoas não sabem o mínimo, como por exemplo, qual é o papel do prefeito, do vereador etc.; não sabem quais são os seus direitos e deveres básicos porque não têm sequer o direito à informação, porque não têm educação básica ou apenas uma educação perversa que sequer lhes permite saber ler”, ressaltou. Para Maristela, é importante incluir em todos os projetos um componente de comunicação estratégica e explorar todas as possibilidades que a comunicação tem de receber a informação e de transforma isso em benefício para sua comunidade.

DEBATE

Durante o debate com os palestrantes, o padre Ermanno Allegri, diretor da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital), sediada em Fortaleza, Ceará, solicitou que fosse vista a possibilidade de descentralização da Secretaria de Comunicação do Governo (Secom), pois esta distribui a verba da comunicação para a grande mídia. “Todos os veículos que criticam o Governo vivem com água na garganta, sem saber se vai poder continuar seu trabalho no próximo mês”, lembrou Ermanno, ressaltando que a Adital é reproduzida por centenas e centenas de outros veículos no Brasil e no mundo.

O jornalista Edgard Patrício, da ONG Catavento, de Fortaleza, reclamou a participação do semi-árido no Grupo de Trabalho sobre Comunicação e Informação Ambiental e lembrou que acaba de ser criado o Núcleo de Ecoornalistas do Semi-Árido.

Maristela Bernardo declarou, respondendo ao questionamento do diretor da Adital, que é necessário acabar com a “excrescência” que é destinar uma verba muito maior para a propaganda de Governo que para a educação e a saúde. “Esta medida é imoral, autoritária e fascista; que essa verba seja usada para a educação, que gere saúde, educação e qualidade de vida para todos e, com uma proposta da sociedade, isso pode acontecer”, enfatizou.

Zacharias Bezerra de Oliveira Jornalista Assessor de Comunicação Associação Alternativa Terrazul

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