Por uma nova cultura da água na América Latina

segunda-feira 5 de dezembro de 2005 por Zacharias Bezerra de Oliveira

Aconteceu essa noite a abertura científica do Encontro Internacional por uma Nova Cultura da Água na América Latina, no Centro Cultural do BNB, no Passaré, em Fortaleza, Ceará. Ao saudar os participantes, a anfitriã, Sâmia Araújo Frota, superintendente da área de políticas do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) a característica desenvolvimentista da instituição, principalmente nos aspectos relativos à água e, principalmente, com os temas de “política ambiental de financiamento de projetos de suprimento de água com sustentabilidade e com democracia”.

O vereador Sérgio Novais, vice-presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, ressaltou a importância desse encontro ser feito na cidade de Fortaleza, que está na região do semi-árido. Ao lembrar os países da América Latina que privatizaram os serviços de abastecimento de água, Novais, falou da necessidade de se realizar um plebiscito sobre a privatização das águas aqui no Ceará. O representante do Governo espanhol, Pedro Flores, da Agência Espanhola de Cooperação Internacional enfatizou a necessidade de se ter o ser humano como objeto da organização do desenvolvimento para que todos tenham um crescimento econômico igualitário. “A água é um direito humano econômico, social e cultural e é um recurso natural cuja preservação é imprescindível”, frisou.

O diretor de Cooperação Técnica do Ministério das Cidades, Marcos Fernandes Montenegro, falou sobre a necessidade de se criar mecanismos para garantir a oferta universal da água. “Para isso, é importante que esse serviço seja prestado por serviços públicos”, enfatizou. Também participaram da solenidade João Bosco Senra, secretário de Recursos Hídricos, do Ministério do Meio Ambiente e Daniela Valente Martins, secretária municipal de Meio Ambiente e Controle Urbano.

Ouro líquido

Federico Mayor Zaragoza, presidente da Fundação de Cultura e Paz, o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de “As veias abertas da América Latina”, e o ex-presidente de Portugal, Mário Soares, enviaram cartas saudando os participantes, que foram lidas para o público. Os missivistas enfatizaram que a água é um bem universal que pertence a todos, “ouro líquido”, do qual ninguém deve ser privado.

Silvério da Costa, presidente da Associação Nacional de Serviços de Saneamento, destacou que a água não é uma mercadoria, mas sim um direito humano que deve ser garantido a todos e a todas que vivem no planeta. Para ele, as experiências exitosas de serviços públicos de abastecimento de água devem ser mostradas como exemplo e que não é a privatização que vai garantir as metas do milênio. “Queremos sair daqui com o fortalecimento de nossas lutas, sair de Fortaleza com um norte para combater as privatizações para garantir o abastecimento de água a preços módicos e também para aqueles que não têm dinheiro garantir a água com qualidade”, concluiu.

O padre José Andrés Tamayo, salvadorenho, que vive há 20 anos em Honduras, onde participa da Marcha Nacional pela Vida, falou sobre o “roubo” dos recursos naturais. Ele explicou que a Marcha é um movimento de resistência “contra a legalização do ilegal, contra o poder que está por cima das leis e dos humanos e para que haja mais justiça ambiental e justiça social”. Para Tamayo, o mundo pobre vive o presente, resolve o presente e não sabe o que vai aparecer no futuro. “Mesmo quando dizemos sim quando nos perguntam se está tudo bem, não está, porque nos estamos torrando de calor e sem água; o rico destrói o futuro dos pobres e rouba o que se tem; os recursos naturais são direitos humanos de todos e destruí-los é atentar contra a vida e, muitas vezes, precisamos defender a vida com o preço de nossas próprias vidas”, enfatizou. Segundo ele, o Banco Mundial e o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID) querem reduzir a pobreza, mas por que a pobreza não se reduz? “Porque o dinheiro vai parar em mãos equivocadas e é desviado”, ele mesmo responde. “Temos que ir aos povos, às comunidades e dar-lhes esperança”, concluiu.

A ecologista Argentina Elba Stancich, falou sobre a importância da preservação da natureza, pois “sem natureza, sem o es ecossistemas não temos água e sem água não temos vida”. Ela denunciou que grandes corporações estão se apropriando dos cursos de água ou estão poluindo mananciais. Para Elba, é necessário se iniciar um movimento para recuperar os nossos direitos sobre a água, porque “na América Latina muita gente está morrendo por não ter água ou muitos estão sendo assassinados por defender os recursos naturais”, destacando movimentos de resistência do México, da Guatemala e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) do Brasil.

Flávio Boeiz, professor da Universidade São Paulo, disse que “o ser humano é o mais terrível predador da natureza” e enfatizou sobre a necessidade de se “humanizar o ser humano”. Boeiz, leu o preâmbulo da Carta da Terra, falou sobre um novo modelo de cidadania planetária, onde se deve ter um comprometimento com cada ser vivente ou por viver e adotar novos padrões de que respeitem todos os seres vivos para a “preservação da comunidade de vida” e para que tenhamos solos férteis, águas puras e ar limpo. “Precisamos pensar numa nova maneira sustentável de vida, cuidar da comunidade de vida com compreensão, compaixão e amor; avançar nos estudos da sustentabilidade ecológica, pois não é possível a construção de um outro mundo sem a erradicação da pobreza; tanta água e tanto desprezo, tanta água e tanta poluição, tanta água e tanta miséria, tanta água e tanto injustiça; precisamos saber para prever e prever para prevenir”, concluiu.

Alma azul do planeta

Pedro Arrojo Agudo, da Fundação Nova Cultura da Água, destacou que a “água é alma azul do planeta”, por isso se deve lutar para recuperar a saúde dos rios e lagos e pela saúde de todos os povos e seres vivos. Segundo ele, um bilhão e 100 milhões de pessoas não têm garantido o acesso à água potável e como conseqüência, dez mil morrem a cada dia, na sua maioria crianças.

Citando a Carta da Terra, Arrojo Agudo disse que “A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado”.

“Os direitos humanos nem se compram, nem se vendem, mas se garantem com o máximo de prioridade; dispor de água de qualidade em nossas casas as 24 horas do dia é um direito cidadão e um direito social que deve estar ao alcance de todos”, concluiu Arrojo Agudo, lendo ainda uma carta enviada por Adolfo Perez Esquivel.

O Encontro segue suas atividades até o dia 9 de dezembro.

Zacharias Bezerra de Oliveira é assessor de Comunicação da Associação Alternativa Terrazul


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