FSM CARACAS: Festa na Casa Americana

sexta-feira 3 de fevereiro de 2006 por Katarina Peixoto*

Um sol de infância, de moral, de esperança e sobretudo de luta, fazem a festa na Casa Americana, a casa de toda a América, contra a morte impregnante do fatalismo, com a integração real, entre história, cultura, política e interesses econômicos, dos historicamente dominados.

Para Maria da Conceição Tavares e Laura Beck Varela

Enquanto Chávez falava, ontem (27), no ginásio Poliedro, uma senhora alta, com um ar profundamente surpreso, o observava, na mesa do palco do evento. O presidente venezuelano, com a sua verve implacável e raro refinamento, falava da importância da insurreição do povo americano, para a derrota do imperialismo mais cruel e mais cínico de toda a história. E Cindy Sheehan, a mãe do soldado morto Casey, de 24 anos, na invasão do Iraque, o assistia com o seu peculiar olhar profundo e ao mesmo tempo redimido. Sem tristeza, sem rancor, sem gritaria, com uma mistura que mais parecia alegria e surpresa. Ela se tornou uma das presenças mais incômodas ao “Mr. Danger” e um dos mais esperançados símbolos deste Fórum.

A delegação norte-americana conta com estudantes socialistas de Boston, com militantes anti-racistas, com feministas organizadas contra a guerra e com trabalhadores do campo. São muitos, a quarta maior delegação, do Fórum. Há também, dentre todos eles, a menção perseverante, nas falas, documentos e intervenções, ao desastre governamental da gestão Bush em socorrer as vítimas do furacão Katrina. Todos contra a sanha imperialista e contra a guerra, trazendo à tona uma das teses fortes sobre o fim do império, segundo uma tradição que insiste em ser atual. É um argumento que muitos deixaram de lado, nos últimos tempos, o de que o império americano só ruirá desde dentro. As condições de transformação radical, seja de uma consciência individual – essa coisa difícil de traduzir – seja de circunstâncias históricas, dependem, necessariamente, de uma “reflexão interior”, de um movimento ou de forças, suficientemente próximas do extremo oposto para conduzirem a história, irreversivelmente.

Quem disse isso foi um senhor barbudo, provavelmente o maior historiador da modernidade, dando sustentação à tese de que nem um procedimento puramente formal ou normativo (de vertente liberal), nem o empirismo das resistências localizadas (de vertente utópica) constituem fonte segura desse caráter irreversível. E os passos da história dependem completamente desse caráter.

Ocorre que esse movimento, no interior dos EUA, cuja forma atual é a de uma resistência contra a invasão do Iraque e contra o governo Bush, não brota do nada. Do nada, como se sabe, nada se segue. É o caso de lembrar algo que foi debatido ao final do Fórum de 2003, em Porto Alegre, numa reunião de uma das forças internacionais motrizes do altermundismo. Lula acabara de ser eleito e o clima de otimismo era incontestável. Daniel Bensaid, francês, professor de filosofia e militante internacionalista, dizia com o otimismo que sempre lhe caracterizou, da grande oportunidade para a América Latina que a invasão do Iraque estava abrindo. Quem assistiu a Chávez, ontem, falando que se abriu uma “espaço-temporalidade” da qual não se deve abrir mão, para não se perder tempo, pôde reencontrar as palavras de Daniel. Não fosse Chávez, Cindy não estaria naquela mesa, não teria dito e ouvido do “louco de esquerda” (que de louco não tem nada), “eu também te amo”. Desse encontro poderoso se faz a festa na casa americana.

Na Casa Americana, para onde migraram depois da fala de Chávez, uma fauna de brasileiros, norte-americanos, franceses e etc, para ouvir e dançar ao som de um dj americano e de um brasileiro (ambos ótimos), funcionam as atividades de sua delegação. Há um enorme painel, que conta com fotos de militantes presos, ligados ao movimento agrário nos EUA, com a agenda de atividades e também com chamadas antiimperialistas. O que mais chama atenção, porém, é um quadro com o “Período da Globalização Atual”, que conta com três linhas de temporalidade: a história econômica da globalização (com destaque para o marco inicial, em 1899-1902, a segunda guerra Anglo-Boer, numa referência clara ao fato de que o imperialismo não é criação norte-americana, o acordo de Bretton Woods, em 1944, a guerra fria, em 48 e o uso do computador na produção, em 1970); a história política da governança (com destaque para o registro dos impedimentos aos negros do sul dos EUA ao exercício da cidadania, através das leis conhecidas sob a alcunha pejorativa de Jim Crow, em 1905) e história do movimento popular (com destaque para o Dia Internacional da Mulher, em 1910, a greve geral de Seattle, em 1919, a Revolução Russa, em 17, a Guerra Civil Espanhola, entre 36 e 39, a Revolução Cubana, dem 59, a primeira marcha GLBT em Washington, em 1979, o levante de Seattle em 1999 e, claro, o Fórum Social Mundial. Esses americanos não estão de brincadeira, ou estão numa brincadeira muito séria, e aqui são recebidos com festa.

Na Casa Americana do Fórum, os latino-americanos fazem festa e os americanos ouvem forró se sacudindo como crianças. No meio da pista, pôde-se encontrar uma das maiores figuras do Fórum, o economista tailandês Walden Bello, dançando com um sorriso nos lábios e conversando com uma ativista norte-americana molhada de suor. No meio da festa, um ambientalista comenta a fala do presidente no ato anti-imperialismo, uma hora antes: “Começou com o hino da IV Internacional, não foi?”. Não, foi com o hino da Internacional mesmo, aquele escrito depois da Comuna de Paris, em 1871, de conteúdo lírico, redentor e profundamente utópico. Tudo isso, porém, sendo cantado num ginásio por milhares de pessoas, por uma mesa com Cindy Seehan, Aleida Guevara (filha de Che), Walden Bello, Ignácio Ramonet, e Richard Gott, entre outros, antes de Chávez começar a falar, foi real, assim como a experiência que a América Latina já está vivendo.

Não se trata, é claro, da experiência do socialismo ou morte, como proclamou Chávez. Pelo menos não ainda. Trata-se de uma festa, sem qualquer brincadeira ou de uma brincadeira em sentido muito sério. Aquilo que Chávez refere sem cessar, dizendo ser uma “profecia” de Bolívar, de que os EUA parecem condenados a “plagar” os outros países americanos de miséria, tem contrapartidas incongruentes, se levarmos esses levantes norte-americanos contra a guerra e contra o imperialismo, a sério. A Festa da Casa Americana parece ecoar, então, uma das mais poderosas vozes anti-fascistas que a esquerda já produziu, no século passado, exatamente por ser uma voz carregada de flancos, de abertura, de entrega.

O poeta espanhol António Machado foi encontrado morto por seu irmão José, em Paris, com um papelzinho no bolso, de um poema inacabado, onde estava escrito: “Estos días azules y este sol de la infância”. Um sol de infância, de moral, de esperança e sobretudo de luta, fazem a festa na Casa Americana, a casa de toda a América, contra a morte impregnante do fatalismo, com a integração real, entre história, cultura, política e interesses econômicos, dos historicamente dominados. Um sol que dá muito o que pensar, também, sobre a perspectiva histórica de que Chávez se serve, para frente e também para trás. E que os movimentos indigenistas latino-americanos reivindicam implacavelmente: a “reabertura do passado”.

Se a história se conta daqui para trás, como disse eternamente Hegel e que Marx assinou embaixo, o anti-imperialismo, inclusive e sobretudo no interior dos EUA, tem um sol consigo. Um sol de infância e de irreversibilidade, à frente. Sem delírio, sem utopias paralisantes, sem preconceitos e sobretudo sem resignação. Os norte-americanos bem que poderiam ter escrito este poema, também de António Machado, nativo de um ex-império, que colonizou a imensa maioria da América Latina:

“Está el ayer alerto/ al mañana, mañana al infininito/ hombres de España, ni el pasado ha muerto/ ni está el mañana – ni el ayer – escrito.” É tempo de irreversibilidades, é tempo de festa, na Casa Americana.

Katarina Peixoto é doutoranda em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) - E-mail: katarinapeixoto@hotmail.com.

Fonte: www.cartamaior.com.br

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