Ser mulher na Libéria

segunda-feira 6 de março de 2006 por Cylene Dantas da Gama*

No Dia da Mulher, onde tantas são as homenagens e comemorações em grande estilo, em hotéis confortáveis com palestras para empresárias, em clubes do calibre de um Rotary ou de um Lions onde um dirigente masculino vai condescendentemente compartilhar seu lugar de chairman (são poucas, muito poucas as mulheres aí dirigentes) com a oradora da vez, em entidades gênero-representativas que certamente estarão aludindo a chama perene do ícone Betty Friedam, a quem tanto devemos aliás, gostaria de pedir as mulheres que voltassem seus pensamentos ao "pior lugar do mundo para ser mulher - a Libéria".

Ser mulher na Libéria significa, literalmente, começar a trabalhar duro aos 10 anos de idade.Significa ser e estar velha antes dos 40 anos. Num lugar exposto a tantas guerras civis, os meninos são desde cedo aliciados, a força mesmo, para a guerra.

Mulheres estupradas pelas milicias é lugar comum, e impotentes nada lhes resta a não ser criar os filhos de seus estupradores.

Na Africa ainda hoje, as mulheres fazem o serviço pesado e os homens apenas demandam os resultados, que devem ser levados a efeito com eficiência e diligência, como carregar filho, fardo , e lata d’água na cabeça, enquanto o homem nada carrega, apenas serve de "coelho de prova", estipulando-lhe o rítmo a ser observado.

Neste lugar pobre e miserável os homens não anseiam pela paz, pois que o exército (formal ou não) lhes garante o soldo em espécie. Não precisam trabalhar. Só matar.

Mas o impensável, o improvável, o impossível aconteceu. As mulheres liberianas num acordo sub-liminar tácito de silêncio, elegem Ellen Johnson-Sirleaf, de 67 anos, a primeira mulher presidente de uma nação africana. Egressa do exilio, onde ocupara cargos importantes junto ao City Bank de Nairobi e junto a Unesco, ela veio para fazer com que esquecêssemos de vez a imagem esfumaçada de Winnie Mandela.

Ellen estudou em Harvard, mas já sabe que com seus antagonistas não há diálogo. O olho por olho e o dente por dente ainda tem que prevalecer antes que uma nova filosofia possa ser implantada, ou sucumbem eles ou sucumbe Ellen.

O Dia da Mulher Liberiana está chegando... e aí ela também vai se dar conta que percorreu um árduo e longo caminho ("you’ve come a long way baby, como diziam os anúncios estadunidenses de cigarro, das décadas de 60 e 70).

Sabemos que a História não dá saltos e que os caminhos têm que ser trilhados, mas fica a pergunta, e nós Mulheres Brasileiras ... não estamos estagnadas há tempo demasiado? Até quando temos que tolerar que homens legislem para Mulheres, insensíveis aos clamores do gênero, inoperantes e fazendo ouvidos-moucos à observação de leis que lhes concede a igualdade de direitos e a cidadania plena, tratando-nos de cima para baixo mesmo quando dizem "meu bem, quer nos servir um cafezinho"? (seja no trabalho ou em casa).

Jornada dupla para todos, Homens e Mulheres! Enquanto isto, vote em Mulher. Contrate serviços profissionais de Mulheres. Prestigie a Mulher, Profissional ou não - esta é a sua tarefa de casa. O seu compromisso maior para assegurar a igualdade.

*Cylene Dantas da Gama é historiadora e ambientalista.

Assinaturas: 0

Fórum

Associação Civil Alternativa Terrazul,

Rua Goiás No 621. Bairro: Pan-Americano. Cep: 60441000 Fortaleza - Ceará - Brasil

E-mail: alternativa.terrazul@terra.com.br tel: + 55 85 32810246

Alternatives International

Data Nome Mensagem