FSM CARACAS: Batalha em torno da democracia determina futuro da América Latina

domingo 29 de janeiro de 2006 por Maurício Hashizume – Carta Maior

Decepcionados com a fórmula da “promoção da democracia” da Casa Branca, acadêmicos e militantes que participam do FSM 2006 mergulham em análises e propostas relacionadas ao conceito.

CARACAS – O futuro da América Latina depende de uma guerra conceitual – com vítimas concretas - que está sendo travada no continente em torno da democracia. Decepcionados com a fórmula democrática atual que rege povos no mundo, acadêmicos e militantes que participam do Fórum Social Mundial 2006 mergulharam em análises e propostas relacionadas ao tema.

Para William I. Robinson, professor de sociologia da Universidade da Califórnia-Santa Bárbara, a política externa dos EUA de “promoção da democracia” tem, na verdade, outra denominação: poliarquia. Trata-se de uma forma de dominação combinada entre consenso e coerção que foi estruturado para conter os movimentos populares nos países em desenvolvimento.

Nos anos 80, houve uma grande mudança estratégica da política externa norte-americana. A reboque da crise de autoridade dos anos 70, a cúpula da Casa Branca e do Pentágono decidiu redefinir a sua estratégia - o controle direto por força de regimes ditatorais daria lugar justamente para a “promoção da democracia”. A postura norte-americana, notaram naquele momento, estava criando condições para a explosão de revoluções populares, especialmente na América Latina. A Revolução Sandinista, na Nicarágua, em 1979, teria sido, portanto, a expressão mais evidente desse processo.

Surge então a Fundação Nacional para a Democracia - National Endowment for Democracy (NED), criada oficialmente como entidade sem fins lucrativos em 1982. A NED recebe recursos do Departamento de Estado e funciona como intermediária – juntamente com as fundações do partidos democrata e republicano - National Democratic Institute (NDI) e National Republican Institute (NRI), respectivamente -entre o núcleo do poder dos EUA e inúmeras organizações, entidades e grupos da sociedade civil (conglomerados de mídia, sindicatos, jovens, centros de pesquisa, etc.) de países em desenvolvimento, que atuam na base das sociedades para com o objetivo de fragilizar os movimentos populares de libertação.

Dessa forma, o governo norte-americano deu concretude à face política do neoliberalismo, mudando a sua estratégia para manter o poder para poucos e, principalmente, os lucros para as empresas transnacionais. “Isso não quer dizer que as ações militares, os embargos e outras intervenções diretas tenham sido descartadas”, frisa Robinson, autor de vários livros dobre o tema. De acordo com ele, existem três categorias de países, para cada qual os EUA definiram estratégias específicas de atuação. As ações com relação a Cuba, Venezuela e agora provavelmente a Bolívia, seriam de desestabilização incondicional. No Equador, na Colômbia e em El Salvador, a regra escolhida teria sido a da desmobilização dos movimentos via entidades da sociedade civil. O terceiro grupo seria formado por aliados como a África do Sul e o Iraque, onde a presença dos EUA é física.

“Na América Latina, isso não é novidade para as pessoas. Todos sabem mais ou menos da intervenção norte-americana. Nos EUA e no Canadá e na União Européia, porém, as pessoas não têm conhecimento e esse tema não é discutido. Todos pensam que se trata de fato de uma ajuda democrática. É um segredo”, conta o canadense Jonah Gindin, idealizador do “In the Name of Democracy” (www.inthenameofdemocracy.org). A iniciativa, lançada no ano passado, une jornalistas, ativistas, estudantes e pesquisadores e busca desmascarar o projeto de “promoção da democracia” do governo norte-americano. O grupo promete divulgar estudo rastreando os tentáculos da Casa Branca nos países da América Latina dois meses antes de cada uma das eleições que se darão neste ano. “Como somos ativistas, pretendemos divulgar esses relatórios antes para que possa haver repercussões ainda na campanha”, promete. Segundo ele, os Estados Unidos devem gastar aproximadamente US$ 2,5 bilhões com “promoção de democracia” no ciclo de eleições latino-americanas em 2006. Fundações e instituições norte-americanas, somadas, estão em 22 países da região.

Contribuição acadêmica

A própria caracterização do capitalismo seria, segundo Adrian Scribano, da Universidade Nacional de Córdoba, o primeiro desafio na busca de alternativas para a poliarquia descrita por Robinson. Para ele, o sistema capitalista poderia ser traduzido pela interação de três processos permanentes que se complementam: o funcionamento de uma grande máquina de depredação de recursos naturais (um europeu consome quase 15 vezes mais petróleo que um argentino); o emprego da repressão, não só na forma imperialista entre países, mas no interior dos países por meio do aparato do Estado; e a regulação da sensação dos indivíduos com base na lógica da impossibilidade e da impotência (não seja tão revolucionário, peça algo que possa ser dado).

Ele mesmo receita alguns “remédios” para os sintomas. Algumas das medidas seriam o incentivo a “novas sensibilidades” – em especial, no olhar para o outro (solidariedade) e o combate aos fantasmas e às fantasias intrínsecas ao sistema (os países latino-americanos não devem seguir o modelo dos países ricos). Ele propõe o enfrentamento em três campos: a batalha dos corpos: combate à fome e às necessidades básicas; a batalha da imaginação contra as fantasias; e a batalha da impunidade - que estabelece privilégios e divisões no âmago da sociedade (aqueles que podem e aqueles que não podem).

Em busca de alternativas sociais e políticas de democracia a partir da América Latina, sociólogos reunidos no Fórum Social Mundial, entre eles Scribano, trocaram experiências e apontaram desafios para a classe acadêmica. A primeira barreira prática que precisa ser superada, enfatizou o presidente da Associação Latino-Americana se Sociologia (Alas), José Vicente Tavares, é a da língua. Ele sugere mais convênios entre editoras universitárias de língua portuguesa e espanhola, bem como a publicação de livros com conteúdo nos dois idiomas. “Há muitas riquezas perdidas”, descreveu o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Já para a complicada tarefa de reinvenção da democracia, Tavares propõe uma releitura do pensamento latino-americano e a recuperação dos saberes originários. Na visão dele, a América Latina se encontra em posição privilegiada, com interlocuções múltiplas estabelecidas com todas as culturas que facilitam a internacionalização da produção do conhecimento.

Além do espectro social, político e cultural, essa nova democracia, no entendimento do sociólogo brasileiro que representa a Alas, precisa tocar o imaginário coletivo. “A grande vítima da globalização é a juventude. Fico fascinado pela presença de jovens no processo do Fórum Social Mundial. Por que existe esse interesse? Há uma busca enorme de significados e dessa busca poderemos desenvolver outras formas de imaginar o possível”.

Fonte: www.cartamaior.com.br

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