Invasão da terra indígena Kaiapó

quinta-feira 19 de janeiro de 2006 por Rodolfo Salm

Que Brás Cubas confessasse haver escrito suas memórias póstumas para nem cem, e quando muito dez, talvez cinco, leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira (mas consterna) é se este artigo não tiver nem os cem leitores do difundo autor. Como eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, quiçá adotando a forma livre de Machado, vou direto à conclusão: O BRASIL CAMINHA RAPIDAMENTE PARA UMA GUERRA CIVIL COM OS POVOS INDÍGENAS DO XINGU.

Algum tempo hesitei se devia abrir este texto pelo princípio ou pelo fim, isto é, se faria em primeiro lugar uma descrição do histórico do problema ou se apresentaria logo de início a bombástica previsão. Dito isto, o conflito se acentua gradativamente. Em dezembro passado, cerca de 700 hectares de florestas foram invadidos e desmatados por fazendeiros na Terra Indígena Kayapó, entre as aldeias Kikretum e Kokraimoro. Imagens de satélite analisadas pelos técnicos da organização não-governamental Conservação Internacional comprovam a existência das áreas desmatadas.

A Polícia Federal e o IBAMA haviam sido alertados há meses pela FUNAI sobre o problema, mas as invasões não foram combatidas e se intensificaram. Resta aos índios usar da força para garantir a integridade de seu território. Assim, antevejo, com segurança e sem exagero, que há uma grande chance de se repetirem no Xingu massacres como aqueles dos índios Cinta-larga de Rondônia sobre garimpeiros que haviam invadido suas terras. Principalmente porque os Kaiapó são tradicionalmente guerreiros e territoriais, têm o hábito de patrulhar suas terras e são justificadamente agressivos se invadidos.

E vejam agora com que destreza, com que arte que faço eu a maior transição deste artigo. Vejam: não haveria o conflito sem a profunda diferença cultural entre o brasileiro índio e o brasileiro não-índio, com contrastes gritantes na forma como lidam com o meio ambiente, com reflexos visíveis no estado de preservação dos ecossistemas naturais. O conhecimento da cultura indígena, de sua economia tradicional e dos ecossistemas que protegem supõe o contato, e eis que chegamos nós, sem esforço, a um dia de setembro de 1996, quando pousei pela primeira vez na aldeia A’Ukre.

Cheguei, recebeu-me nos braços a comunidade indígena, que se gabava de abrir as portas de um outro mundo a pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras através da base de pesquisas do Pinkaití, situada em uma área de 10.000 hectares, cerca de 10 km rio-acima da aldeia, onde se comprometeram a não caçar e não retirar madeira, para a promoção de pesquisas ecológicas em uma área prístina, bem no meio do Arco-do-Desmatamento da Amazônia. A base é um exemplo único de floresta amazônica sazonalmente seca em excelente estado de conservação, com infra-estrutura para receber regularmente estudantes de universidades brasileiras e estrangeiras.

Com efeito, estando a passear na floresta, pendurou-me uma idéia no trapézio que eu tenho no cérebro. Reunindo estudantes e professores das várias partes do mundo em um território administrado por um dos últimos grandes povos indígenas selvagens da Terra, ocupando uma área extensa e preservada do último grande remanescente de florestas da região tropical (em rápido processo de degradação), a base de estudos, de absolutamente anônima (quase um segredo), com um pouco de ajuda da sorte, poderia virar um espaço sublime, com o poder de mudar o melancólico destino da humanidade. A idéia, depois de tantas cabriolas, constituiu-se fixa. Para mim, perderam a graça toda cidade, fazenda, praia, montanha, ou até mesmo várias das belas reservas do Cerrado e da Mata Atlântica, pois lhe faltam os grandes mamíferos silvestres ou o silêncio da ausência absoluta de estradas, quebrado apenas pelos sons da natureza e da cultura indígena. Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa.

Porém, passado o entusiasmo dos primeiros dez anos, vi que é insuficiente o interesse do mundo nos tópicos “índios” e “Amazônia” e quase nulo em seu modo de vida como solução para a preservação da floresta; a freqüência de pesquisadores na base do Pinkaití atualmente tende a zero; e posso confessar: o que me influiu principalmente foi o gosto de banhar-me no Riozinho do A’Ukre entre surubins e tucunarés, sob o vôo dos papagaios, das araras e das andorinhas. Para que negá-lo?

Eu tenho a paixão da mata, da chuva, de perder-me nos labirintos das trilhas das antas, abundantes nos barreiros da floresta. Assim, meu trabalho traz duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado a ecologia e a conservação; de outro lado, sede de contemplação. Digamos: - amor da natureza.

Começo a arrepender-me deste artigo. Não que ele me canse; eu não tenho o que fazer; e, realmente, expedir alguns parágrafos a um jornal desta importância para a diminuta parcela da sociedade que tem meios para formar a opinião pública é tarefa que distrai e alegra um pouco a vida na cidade. Mas a previsão de uma guerra civil entre índios e brasileiros não-índios no Sul do Pará e norte do Mato Grosso cheira a sepulcro e traz certa contração cadavérica.

O alerta em si mesmo é tudo: se te interessar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te tocar, pago-te com um piparote, e adeus.

Rodolfo Salm é doutorando em Biologia e pesquisador do Projeto Pinkaiti’-Aldeia A’Ukre.

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