A destruição da natureza brasileira em números II

quarta-feira 10 de agosto de 2005 por Arthur Soffiati

Ainda vigora a concepção segundo a qual meio ambiente, desenvolvimento econômico e desenvolvimento social são incompatíveis. Melhor dizendo, não se pode proteger o meio ambiente e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento econômico e social, pois os três colidem. Então, diante deste conflito, a proteção do meio ambiente aparece como a grande vilã a impedir o progresso.

Mas, confiando na pesquisa Perfil dos Municípios Brasileiros – Meio Ambiente 2002, lançada recentemente pelo IBGE, delineia-se um outro quadro. Nota-se que a destruição do meio ambiente acarreta danos profundos à economia e à sociedade. E o lamentável é que a economia e a sociedade destroem o meio ambiente, produzindo uma espécie de efeito bumerangue.

De acordo com a pesquisa, a atividade econômica que mais sofreu com a degradação ambiental foi a agricultura, atingindo 34% dos 5.560 municípios entrevistados. Os estados mais afetados foram Pernambuco (73,5% dos municípios) e Espírito Santo (69,7% dos municípios). Quanto à pecuária, 23,7% dos municípios brasileiros foram prejudicados. A maior parte dos municípios em que a pecuária foi afetada por problemas ambientais fica em Roraima (53%) e Pernambuco (44%). Os prejuízos à pesca atingiram 18,5% dos municípios. Eles se apresentam mais graves na região norte, com o percentual de 73% dos municípios. É enganoso, por este dado, continuar pensando que a Amazônia é o maior celeiro de peixes do Brasil. Se for ele está bastante ameaçado.

Tudo faz sentido, embora a pesquisa não tenha a confiabilidade esperada. A agropecuária desmata para ampliar fronteiras econômicas e deixa o solo exposto às intempéries. A agricultura é praticada em terrenos impróprios e com tecnologia agressiva. O gado pasta em encostas. Tudo isto provoca erosão e empobrecimento da fertilidade do solo. Ambos se voltam sobre as duas atividades e acabam por inviabilizá-las ou gerar rendimentos decrescente. Os agrotóxicos afetam o trabalhador e o consumidor. E mais: as nascentes, os rios e as lagoas começam a secar. A falta d’água é o maior problema a assolar a agropecuária e a pesca, segundo gestores de 72% dos municípios.

O esgoto urbano e os despejos industriais alteram os ambientes aquáticos, afetando a atividade pesqueira, tanto em águas continentais como em águas marinhas. E os organismos aquáticos extraídos de seus ambientes ainda são responsáveis por expressiva parte da alimentação mundial, notadamente das camadas pobres. Todavia, a pesca predatória foi detectada como a grande responsável pelos problemas que atingem a atividade, matando a galinha dos ovos de ouro.

No que concerne à qualidade de vida e à saúde, a falta de saneamento atinge índices bastante altos. A maior proporção de municípios vitimados pela poluição fica nas regiões sul (45%) e Sudeste (43%). A contaminação do solo também é um grande problema no sul (50%) e no Sudeste (34%). Os causadores principais são a urbanização e a industrialização. Se, nos municípios da zona rural, as queimadas são as maiores responsáveis pela poluição do ar, nas cidades com mais de 500 mil habitantes, os geradores de fumaça e partículas são os veículos automotores e as fábricas.

Os números aqui são eloqüentes e quebram aquela idéia generalizada e profundamente arraigada na sociedade, nos empresários e nos governantes de que grandes cidades com muitos veículos circulando e indústria são sinônimos de desenvolvimento. Quando a gente pergunta a uma pessoa comum o que um governo pode fazer para promover o desenvolvimento, a resposta é imediata: trazer indústrias para o município. Pois aí está: as regiões consideradas mais desenvolvidas do Brasil são as mais poluídas. Há um consenso quanto à contribuição do petróleo na poluição das águas marinhas. Basta ver o caso dos Estados do Rio de Janeiro, com 77% dos municípios afetados, e do Espírito Santo, com 60%.

A conclusão maior que posso tirar desta pesquisa é que os modelos de desenvolvimento nascidos da revolução industrial, nas suas vertentes capitalista e socialista, são contra-naturais. As grandes plantas agropecuárias, industriais e urbanas são insustentáveis do ponto de vista sócio-ambiental. A mantê-las, podemos divisar dois horizontes. O primeiro deixa o sistema funcionar a todo vapor. Neste caso, ele vai usar uma moto-serra para cortar as pernas da cadeira em que está sentado. No segundo horizonte, o sistema procura amenizar os impactos ambientais mediante aterros sanitários, usinas de reciclagem, estações de tratamento e filtros contra gases. Neste caso, as pernas da cadeira serão cortadas com uma serra manual. Nas duas situações, o sistema vai ruir. É só uma questão de tempo.

Mais do que nunca, acredito que a saída seja construir uma outra civilização, mas esta convicção parece a muitos uma grande utopia.

Fonte: Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 10 de Julho de 2005

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