Entrevista a Edgardo Lander

segunda-feira 13 de fevereiro de 2006 por Flávio Aguiar - Agencia Carta Maior

“Organizações sociais já não temem a política”

Na opinião do professor e sociólogo Edgardo Lander, uma das principais figuras por trás do FSM 2006, está em curso um processo coletivo de maturação das organizações sociais. Segundo ele, houve, em épocas anteriores, uma pretensão de separar o social, que seria puro, do político, contaminado e sujo.

O eixo temático “Poder, política e lutas por emancipação social” foi o que mais recebeu inscrições na edição continental do Fórum Social Mundial 2006, que aconteceu entre 24 e 29 de janeiro último. Na opinião de uma das principais figuras detrás deste sexto encontro, Edgardo Lander, professor de Ciências Políticas da Universidade Central da Venezuela (UCV), está em curso um processo coletivo de maturação das organizações sociais. “Já não existe medo à política”, assinala.

“Houve, em épocas anteriores, em muitas discussões entre as organizações sociais, a pretensão de separar o social do político, de crer que o político era contaminado e sujo, que o social era o puro e o autônomo”, afirma. Este ano, entretanto, a demanda para que os temas políticos conjunturais fossem debatidos foi muito grande. Para Lander, as organizações passaram a dar mais peso às decisões de Estado que afetam a todos, independentemente da área em que as pessoas atuam.

Segundo Lander, a realização do Fórum Social Mundial em Caracas tem principalmente três conseqüências para a Venezuela: a possibilidade de que as organizações sociais venezuelanas, que têm pouca experiência internacional, entrem em contato com o que ocorre em outros lugares do mundo; a possibilidade de que as pessoas de fora possam ver a Venezuela com outro olhar; e que a presença de muitos meios de comunicação e de muitas pessoas sirva para construir uma barreira de proteção ante as ameaças imperiais do governo Bush.

Leia, a seguir, a íntegra da entrevista concedida pelo sociólogo venezuelano à Agência Carta Maior:

CARTA MAIOR - América Latina vive hoje um movimento de ascensão política da esquerda e das forças populares que só é comparável ao que ocorreu nos anos 50, iniciado com a Revolução Boliviana, em 1952, e cujo ponto culminante foi a Revolução Cubana, em 1959. Como o senhor vê o papel do Fórum neste momento?

EDGARDO LANDER – Creio que o Fórum é uma expressão desses processos. Efetivamente, a América Latina encontra-se em um momento histórico extraordinariamente dinâmico. Hoje, este é o continente que concentra uma alta proporção da luta pela resistência ao império e pela construção de outro mundo, de maneira extraordinariamente diversificada. Nos encontramos, hoje, na América Latina, onde, pensando em nível de governo, ocorreram mudanças muito significativas. Obviamente, o maior deles, nos últimos meses, foi a eleição de Evo Morales, uma mudança cataclísmica.

Pela primeira vez, a maioria da população da Bolívia, a população indígena com seus representantes, é governo. Isso significa que eles estão dando os primeiros passos reais rumo à ruptura da ordem colonial, que segue vigente até hoje, e rumo à construção de uma sociedade autônoma, democrática, com uma forma de organização que corresponde a patrões diferentes do colonial, imperial, eurocêntrico, ao da democracia liberal, de exclusão e de racismo, que são os patrões que têm imperado. É notório que, com avanços, retrocessos e frustrações, como no caso da experiência do governo Lula, vive-se um momento histórico no qual pela primeira vez encontramos um número significativo de governos que apontam para uma direção diferente à do modelo neoliberal imposto com repressão e sangue de nossos povos.

Há movimentos sociais com uma força e articulação que não existiam em tempos anteriores. Encontramo-nos com capacidades novas, como a que vê viu na luta contra a Alca. Pela primeira vez, uma articulação de organizações e movimentos sociais de todo o continente foi capaz de atuar de maneira conjunta e basicamente derrotar algo que parecia impossível de deter. Há três anos, a Alca, que contava com o respaldo de praticamente todos os governos do continente, que contava com o apoio de todas as corporações internacionais e que era um objetivo político de primeira ordem do governo dos Estados Unidos, avançava inexoravelmente até a sua finalização, o ano passado. Isso não ocorreu, como conseqüência das mudanças políticas no continente. Essa é a melhor prova de que efetivamente nos encontramos em um momento de mudança, apesar de que a ofensiva imperial segue. E os meios de comunicação continuam nas mãos das transnacionais. Não há democracia sem a democratização dos meios. As pessoas têm o direito de saber o que ocorre no planeta. A Telesur é um passo nessa direção.

Encontramo-nos em um continente em convulsão e o Fórum também é uma expressão disso, como lugar de encontros, de campanhas, de articulação contra a dívida, contra o machismo, contra a destruição do planeta por esse modelo predatório. Essa diversidade é, entre outras coisas, uma nova forma de fazer política, uma nova forma de construção da idéia de que ninguém é dono da verdade e de que tão pouco existe alguém que tenha um modelo de sociedade alternativo já definido. Essa construção coletiva e democrática parte da idéia de que a construção de uma sociedade democrática ou se faz democraticamente ou não se faz, e de que não há possibilidade alguma de que um patrão único de sociedade permita a diversidade da vida no planeta. E que a idéia zapatista da construção de um mundo onde caiba todo o mundo só se pode fazer pela via de outras formas de fazer política, em que a diversidade, a pluralidade e a celebração do diferentes que somos e da capacidade de articularmo-nos e lutar contra um inimigo comum, a partir de nossas diferenças. Isso permitirá a construção de outra ordem. Na América Latina, essa nova ordem será não só de resistência e lutas, mas também de construções comunitárias, em formas de produção, em experiências como a do MST, que são experiências de construção efetiva de outras subjetividades e de outras relações, de outros patrões produtivos, de outras formas de organização da saúde e da educação. O processo possui essa dimensão: resistir, opor-se e criar outras subjetividades, e construir dentro do mesmo processo outra forma de vida.

CM – E qual é o significado especial do Fórum para a Venezuela neste momento?

EL – Eu diria, basicamente, três coisas: primeiro, a possibilidade real de um enriquecimento extraordinário das organizações sociais venezuelanas, muitas das novas e muitas de base, pequenas, que cruzam o país, tem, em muitos casos, pouca experiência internacional e pouca relação com o momento de luta de outros povos. A possibilidade para o camponês venezuelano e suas organizações de estabelecer diálogo com o MST, que as organizações indígenas dialoguem com a Conaie (Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador), esse tipo de relação com toda certeza aprofundará a luta. O reconhecimento da experiência de outros permitirá deixar de olhar para o próprio umbigo, deixar de pensar que tudo está ocorrendo aqui e saber que tudo está forma parte de um processo muito mais global e complexo. A possibilidade de enriquecimento também pode ser um antídoto contra o sectarismo, as intolerâncias e coisas que caracterizam muito do que ocorre hoje na Venezuela.

Em segundo lugar, será muito importante para que as organizações e pessoas que vêm de fora possam ter um olhar distinto sobre a Venezuela, sobre a base, e que possam falar diretamente com organizações que estão em distintas frentes de luta. Se alguém está interessado no tema dos comitês urbanos de terra, há atividades às quais se pode ir e falar com os companheiros. É diferente ter a visão dos meios de comunicação ou dos discursos do presidente e ter a possibilidade do contato direto com as organizações que estão em distintas frentes de luta. Isso também serve para ver a complexidade e as tensões do processo venezuelano, e as pessoas sairão daqui com um conhecimento muito mais profundo. Em terceiro lugar, o fato de que o Fórum é ativo, plural, democrático, com a presença de muitos meios de comunicação e de muita gente. Creio que pode construir, significativamente, uma barreira de proteção ante as ameaças imperiais do governo Bush.

CM – Toda edição do Fórum têm seu grande slogan. Por exemplo: em 2001, foi anti-Davos; em 2002, “não estamos sós, somos uma massa de pessoas do mundo inteiro”; em 2003, contra a guerra e a favor de uma cultura de paz; 2004, na Índia, a questão da exclusão, dos intocáveis; 2005, a política e o poder. Qual espera o senhor que seja o eixo central desta edição do Fórum?

EL – Não creio que seja possível pensar que a Venezuela seja um eixo central. Eu diria, em primeiro lugar, que obviamente a relação do Fórum com a Venezuela será uma presença importante e inevitável. O Fórum se realiza em um lugar, em um território, em um tempo político. E a dinâmica do contexto venezuelano estará presente no Fórum. Isso tem u determinado sentido que afetará, incidirá e colocará um foco político importante no Fórum. Quando se construíam os eixos temáticos e se definiram quais seriam os eixos principais do Fórum, introduziu-se de uma forma muito manifesta, como eixo número um, o tema político. Havia, em épocas anteriores, em muitas discussões entre as organizações sociais, uma pretensão de separar o social do político, de crer que o político era contaminado e sujo, que o social era o puro e o autônomo. Mas consultando organizações sociais para a construção do programa do Fórum deste ano, aparecia reiteradamente a demanda de que os temas políticos conjunturais fossem debatidos. Que se visse o que passa com o Império, com o governo, qual a relação que existe ou deve existir entre as organizações sociais e os governos de diferentes matizes, de esquerda, progressistas, de centro. Esses temas apareceram como temas que as organizações definiram como necessários.

Quando se construiu o eixo diretamente político, que destaca de uma forma muito mais manifesta que nos fóruns anteriores esses temas – a relação entre partidos e sindicatos, entre partido e movimentos, os temas da autonomia dos movimentos e, incluso, o tema do socialismo, Não para nossa surpresa, porque esperávamos que isso ocorresse, o eixo temático que teve mais atividades inscritas foi esse. Creio que há um processo de maturação coletiva das organizações sociais, que já não temem a política, não significa, necessariamente, que começaram a pensar que a via eleitoral é a solução, nem que vão deixar seu trabalho e sua militância para dedicar-se a apoiar a um determinado candidato. Mas sim, que a dimensão política da vida tem a ver com as decisões de Estado e com as políticas imperiais são coisas que afetam a todos, independentemente da área de trabalho na qual as pessoas estão:

contra os transgênicos, contra os patrões patriarcais de poder, pela reforma agrária, há uma dimensão necessariamente política de cada uma dessas coisas e já não se teme isso.

Tradução: Zacharias Bezerra de Oliveira

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