FSM CARACAS: Outro socialismo é possível? Esquerda debate agenda para o século 21

sexta-feira 27 de janeiro de 2006 por Marco Aurélio Weissheimer

Para Samir Amin e François Houtart, socialismo não pode ser um projeto resultante de um imaginário utópico, mas sim produto do movimento social real, com uma agenda concreta. E, hoje, essa agenda passa, segundo eles, pela ruptura com a lógica da competição e pela luta contra o imperialismo.

CARACAS - Visões mundiais do socialismo do século 21. Esse foi o tema de um concorrido debate realizado na manhã desta quinta-feira (26), na pequena sala Cedro, do Hilton Hotel. A desproporção entre o tamanho da sala e a atração que o debate exerceu sobre o público do Fórum Social Mundial mostrou que o tema interessa. E muito. O italiano Mimmo Porcaro, da Associação Cultural Punto Rosso, resumiu assim o espírito do ambiente que cercou o debate: “Para nós, europeus, chegar aqui na América Latina é como uma experiência de renascimento. Vocês estão tendo a coragem de usar de novo uma palavra que, entre nós, está praticamente banida. Na Europa, “socialismo” tornou-se uma palavra quase impronunciável. Os grandes partidos comunistas tornaram-se ideólogos do neoliberalismo”. De fato, na observação de Porcaro não há nenhum exagero. Nos livros que circulam no Fórum, nas camisetas e nos debates, socialismo é uma palavra muito freqüente.

Mas qual socialismo? E qual o caminho para chegar a ele? Recém-chegados da África, onde participaram da etapa de Bamako (Mali) do FSM 2006, Samir Amin e François Houtart, presidente e secretário do Fórum Mundial de Alternativas, respectivamente, propuseram um caminho básico para esse debate. Mais do que isso, na verdade. Propuseram uma linha de ação. Para Houtart, o ponto fundamental da reflexão sobre o socialismo do século 21 não deve girar em torno de uma tentativa de defini-lo de uma maneira abstrata. Há um caminho concreto a seguir, defendeu. “Quais são as nossas lutas? O que queremos? Esse é o nosso caminho”. O desafio central, segundo ele, é uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, sobre o presente e seus desafios. Um deles, propôs, é como passar de uma consciência coletiva à construção de atores coletivos, um tema diretamente relacionado ao futuro do Fórum Social Mundial.

CONSCIÊNCIA COLETIVA E ATORES COLETIVOS

Na avaliação de François Houtart, o FSM tem avançado muito na construção de uma consciência coletiva sobre a necessidade da construção de alternativas ao atual modelo de globalização capitalista, e deve continuar a fazer isso. Passo necessário, porém insuficiente, advertiu. Sem a construção de atores políticos coletivos, os fóruns “correm o risco de se transformar em uma espécie de Woodstock social”. Reconhecendo a pluralidade e a diversidade do processo FSM, Houtart acredita que os fóruns podem ajudar a construir esses atores coletivos, mas talvez não sejam, nos moldes atuais, a instância mais adequada para tanto. Hoje, assinalou, os fóruns são locais de encontro e de intercâmbio, mas não de decisões. E, no que diz respeito ao debate da esquerda sobre a construção do socialismo do século 21, as decisões a tomar são urgentes. Decisões, por exemplo, sobre a luta global contra a guerra e contra o imperialismo.

O secretário do Fórum Mundial de Alternativas deu um exemplo de proposta que pode ser implementada ainda no início de 2006. Está marcada, para os dias 18 e 19 de março, uma mobilização mundial anti-guerra. “Estamos propondo acrescentar dois outros pontos nesta mobilização: a destruição total dos armamentos nucleares e a interdição de sua fabricação, e o desmantelamento de todas as bases militares no estrangeiro”, anunciou. Mas o que isso tem a ver com o socialismo do século 21? François Houtart e Samir Amin chamaram a atenção para a importância de olhar para o presente. “O socialismo não pode ser um projeto resultante de um imaginário crítico utópico. Tem que ser produto do movimento social real e concreto. Não podemos falar de socialismo sem falar do sujeito histórico que vai ser o portador desse projeto”, defendeu o sociólogo egípcio. E há poucas coisas que mobilizam mais o mundo hoje do que a guerra.

INTERROMPER O PROJETO DOS EUA: A CONDIÇÃO-CHAVE

Para Samir Amin, é preciso partir dos problemas e desafios que a sociedade capitalista apresenta hoje de modo muito concreto: a militarização da agenda política das nações, o imperialismo, a destruição progressiva do meio ambiente, o crescente déficit democrático, a mercantilização da vida, para citar alguns dos principais. Esses desafios, acrescentou, podem ser olhados de duas maneiras: do ponto de vista conjuntural e do ponto de vista estrutural, que exige uma visão estratégica de longo prazo. “Foi o que procuramos fazer em Bamako, no dia 18 de janeiro, com a elaboração de propostas e formação de grupos de trabalho para a construção de uma alternativa ao capitalismo”, apontou, falando da declaração resultante deste encontro, denominada “Apelo de Bamako”. Esse documento será agora difundido e publicado em várias línguas, constituindo-se essencialmente em um chamado para a ação. Uma ação que bate de frente com a lógica capitalista.

E bate de frente, segundo Amin, porque questiona duas características inseparáveis do atual estágio do capitalismo. Em primeiro lugar, questiona o princípio da competição entre os indivíduos e as nações, ao propor a primazia da solidariedade sobre a competição. Em segundo, questiona sua lógica imperialista, defendendo uma perspectiva onde todas as nações sejam consideradas iguais. A combinação desses dois elementos se expressa em propostas em defesa do mundo do trabalho, do acesso à terra, da abolição da discriminação e pela gestão não mercantil dos recursos naturais e dos recursos sociais. Ele reconheceu que a implementação dessa agenda envolve pontos de grande conflito político. Mas, enfatizou, a interrupção do projeto dos Estados Unidos de controle militar do planeta é uma condição para todo o resto. Daí a centralidade estratégica de uma mobilização global permanente contra a política belicista que vem marcando a política de Washington.

O FUTURO DO FÓRUM

Tanto Houtart quanto Amin concordaram que a América Latina assumiu uma posição de vanguarda nesta luta, confirmando as palavras de Mimmo Porcaro. Diagnóstico, aliás, repetido várias vezes em Caracas, representando por si só um desafio aos organizadores e participantes do FSM. Se, na América Latina de hoje, começa a ser construída uma estratégia de enfrentamento com a maior potência do planeta, como fica o FSM? Samir Amin refletiu sobre esse ponto. “Nosso projeto defende a construção de uma frente internacional anti-imperialista. Os fóruns são pontos de encontro de todos os que protestam contra o neoliberalismo. Todos os seus participantes são iguais e respeitáveis e é preciso respeitar a posição de cada um. O importante é continuarmos juntos e permanecer discutindo. Nenhum dos que promovem essa iniciativa quer sair do Fórum. Se há os que querem isso, em todo o caso não somos nós”.

As palavras de Amin fizeram lembrar uma velha máxima: assim como a natureza, a política tem aversão ao vácuo. As mudanças no mapa político da América Latina e a crescente situação de instabilidade no Iraque e no Oriente Médio abriram um novo espaço de atuação para as forças que se opõem à atual lógica de dominação mundial comandada pelos EUA. Criado sob o lema da necessidade de construção de uma nova ordem global, o FSM está sendo interpelado a manifestar-se. “O FSM não pode se limitar a ser uma espécie de exercício espiritual”, emendou Roberto Sávio, presidente da agência IPS e membro do comitê internacional do Fórum. “Até agora, não conseguimos construir alternativas concretas e planos de ação. E a janela que está se abrindo agora para a América Latina deve durar de 7 a 9 anos”, alertou. O que ficou claro no debate é que, seja qual for o projeto de socialismo possível de ser construído neste início de século, ele passa necessariamente pela América Latina.

Fonte: www.cartamaior.com.br

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