Lula fez acontecer

domingo 8 de janeiro de 2006 por Ermanno Allegri*

No começo deste ano, lembramos que dezembro de 2005 nos trouxe duas boas notícias: a Alca foi enterrada em Mar del Plata e o FMI está fora do Brasil. Agora também da Argentina!

Os movimentos sociais durante 2005 encheram as praças e as avenidas do Brasil. O gramado do Planalto nunca sofreu tanto com milhares e milhares de pés pisando nele! Centenas de faixas e painéis davam o tom de festa e a criatividade dos artistas populares encontrou mil versões do ‘Tio Sam’: com dentes e unhas de vampiro, com carinha de rato, com bigodinhos de Hitler. E, sempre, se destacavam os letreiros ‘Não a Alca’, ‘Fora o FMI’. Essas palavras se tornavam slogans encorajados por poderosos carros de som e ampliados pela voz de milhares de manifestantes.

Nas correrias de fim de ano, nem comemoramos o fato de que a pressão da sociedade e a ação do governo derrubaram a Alca e o FMI. Não era isso que a gente queria? Gente, vamos comemorar! Agora, podemos jogar fora alguns painéis, bonecos e faixas; aliás, vamos fazer uma reforma neles, ainda vai ter assunto para 2006: TLC, OMC, dívida externa, reforma agrária, salário mínimo... Mas não podemos deixar passar despercebidos os ganhos que conseguimos.

A oposição e a maioria dos meios de comunicação deixaram passar esses dois fatos sem dar qualquer destaque. Claro, eles não têm o menor interesse e disposição em noticiar os ganhos do Governo Lula. Mas, porque a esquerda e os movimentos populares não comemoraram? Talvez porque alguém imaginava que, se livrando da Alca e do FMI, teria acontecido algum milagre e o Brasil teria ficado automaticamente mais igual, mais culto, mais saudável? Para que isso aconteça, agora, sem a Alca e sem FMI, é necessário encaminhar e fazer acontecer uma série de políticas que criem o novo Brasil que queremos. Slogans, palavras de ordem, etc... tudo é necessário, mas vamos ser bem realistas e com os pés no chão: para fazer acontecer nossas palavras de ordem são necessárias etapas e estratégias. Precisa governar no concreto, no real que o país vive. E governar é outra coisa; exige, inclusive, a sagacidade e o estômago de ferro para negociar com raposas e canalhas de velha data!

Maria da Conceição Tavares, economista bem conhecida pelas suas atitudes fortes e claras, comemorou.

Ela diz numa entrevista a Carta Capital: "Ao pagarmos o Fundo Monetário chegaremos a uma relação ‘dívida externa e PIB’ que, finalmente, apagou o que o governo do Fernando Henrique fez. Isso é espantoso: é a melhor relação dívida externa versus Produto Interno Bruto dos últimos 40 ou 50 anos. Conseguimos sair do atoleiro (...) Dever ao Fundo, como se devia, é uma desgraça. Agora pagamos e há reservas de US$ 52 bilhões e uma dívida externa reduzida de 40%" (...) "Abriu-se agora um novo período".

Carta Capital: "A partir do pagamento ao FMI?"

Maria da Conceição Tavares: "Sim. Isso significa que a restrição externa que vem de lá de trás, desde o começo dos anos 80, está equacionada... Dá para baixar, a sério, a taxa de juros. Agora, sim, temos condições para retomar o crescimento"

E ainda diz: "Sabe qual era a relação ‘dívida externa e PIB’? Era um pouco acima de 3%. Hoje é só de 1,1%. Sabe qual era quando nós quebramos em 1999? Era de 3,97%. Isso é praticamente 4%. Com essa relação, os países quebram... Olha como os governos não se parecem, ao contrário do que alguns dizem por aí... Há uma queda da dívida, pública e privada, enorme" (Carta Capital, 28.12.2005)

Alguém têm a coragem de acusar Maria da Conceição Tavares de subserviência ou de falta de lucidez nas análises?

Agora, se temos condições econômicas mais propícias, queremos ver uma coragem mais explícita nas decisões do governo Lula. Se esse período passado foi ‘necessário’, agora os problemas sociais devem ser atacados com mais força, não só para dizer que esse governo investiu mais do que os governos do PSDB do FHC, mas para encaminhar soluções reais! Sem isso, o verdadeiro ‘risco Brasil’ poderá crescer muito: é o risco que a sociedade não perceba uma clara preocupação do governo com a espantosa dívida social do país: educação, terra, saúde, emprego, renda, etc. Essa é a resposta que a sociedade espera do governo nesse ano, para darmos continuidade, em outubro, à esperança que criamos e a qual nunca vamos renunciar.

* Ex-secretário nacional da Comissão Pastoral da Terra e diretor da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (www.adital.com.br)

Fonte: Adital

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