Corruptio optimi pessima est

quarta-feira 20 de julho de 2005 por Leonardo Boff

Esta expressão latina diz de forma breve uma grande verdade: "a corrupção dos melhores é a pior que existe". Houve corrupção em políticos do PT e em outros, não pontual nem episódica, mas intencionada e planejada. Esse tipo de corrupção, como muitos atestaram, vem sendo praticada há muito pela política convencional de forma sistemática: a criação de caixa dois para financiar campanhas eleitorais e comprar eventualmente votos. Se todos fazem isso (reservado fica o direito da dúvida), o PT não poderia jamais fazer o mesmo. Ele surgiu no cenário histórico com a bandeira da moralidade pública, das mudanças, da centralidade do social e da democratização da democracia. E eis que agora setores importantes do PT resvalaram para a vala comum, desonraram uma história gloriosa, atraiçoaram os que viviam de esperança e deram um tranco formidável na evolução política do Brasil. A corrupção destes melhores é a pior coisa que possa existir. Quem será agora o portador coletivo da ética embora ninguém tenha o monopólio dela? Não dá para reanimar um cadáver. Este tem que ser enterrado.

Graças a Deus que existem pessoas no PT que sempre resistiram às tentações das benesses do poder, que não negociaram com as "más companhias", que sempre alimentaram uma relação orgânica com os movimentos populares e que sempre mantiveram alto teor ético-místico em sua prática política. Estes formam a reserva ética, ganharam, nesta crise, credibilidade e emergem como pontos luminosos de referência. Se não forem escutados, se não ocuparem posições intrapartidárias importantes na reconstrução da figura do Partido é sinal que este não se dispõe a aprender nada da crise e persiste na arrogância e no farisaísmo.

Esta crise ética nos faz pensar. Não é suficiente uma ética social, expressão de um projeto coletivo, representado, por exemplo, pela generosa tradição marxista/socialista. Em função de um bem coletivo e por causa do dinamismo próprio da dialética, há na prática marxista a tendência de justificar deslizes éticos como passos toleráveis para se conseguir certos avanços na luta de classes. A ética pessoal é sacrificada em nome de um fim mais alto.

Esta posição não é esposada pelos cristãos de onde vêm muitos do PT. Se há uma colaboração perene que o cristianismo trouxe ao discurso ético é certamente este: o caráter inegociável da ética pessoal. A razão reside no entendimento da consciência como norma interiorizada da moralidade. Esta interiorização é um fato irredutível. Não é fruto de algum superego social, nem é eco da voz do dominador externo. Há lá dentro, no íntimo de cada pessoa, uma voz que não se cala, sempre vigilante, aprovando e proibindo, advertindo, aconselhando e dizendo: "não faças isso, faça aquilo". Por mais que psicanalistas, marxistas e outros mestres da suspeita tenham tentado deconstruir essa voz, ela perdura soberana. Sócrates e Kant a chamaram de "voz de Deus em nós". Ela não cessa de falar. Os corruptos do PT e outros não escutaram esta intimidação da consciência. Nenhum projeto de poder, nenhuma vitória eleitoral justifica a desobediência à consciência. E assim, poderão ser punidos pelas leis e muito mais pela própria consciência. Não adianta fugir, ela sempre os perseguirá.

Em homenagem ao Senador Eduardo Suplicy e ao Deputado Chico Alencar.

Fonte: Adital - www.adital.com.br

*Teólogo

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